quarta-feira, 18 de julho de 2018

Volto Já

Os meus vestígios são os indícios de uma revolução.
De-mê um princípio ou um precipício ou uma absolviçãom

Precisei ausentar-me da solidão que havia em mim.

Mas volto já com coisas raras,
Volto já com as vistas claras.

Se tudo desaguou em ti,
Por que haveria eu de mudar?

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Viação

O grande relógio da rodoviária perde um dia a cada ano.
O antigo ônibus acolhe mais im empoeirado em cada ponto.
Indas e vindas tão desconexas como nossas vidas.
Rodovias pavimentadas com a saudade sóbria dos que souberam não voltar.

Paguemos nossos tributos às estradas e suas longas procissões de placas e possibilidades
Pois a verdade não liberta, te acorrenta na inevitabilidade das circunstâncias.

As estradas foram feitas
Para os que souberam sonhar
E para os que souberam sofrer.

As distâncias se multiplicam entre nós.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

Laticínios Metafísicos

Todas as ruas estão vazias.
A indiferença paira larga sobre nossas portas.
Mil olhos se fecham para que apenas um se abra.
Não há nada mais que a poesia possa dizer
Que nossas orações já não tenham perdido.

Toda nossa raiva se choca
Contra os paredões intransponíveis da esperança,
Mas abaixada a poeira,
Nenhuma pegada sobre a areia.

Insuflados como velas em direções contrárias,
Rumamos ao centro percorrendo perímetros.
Somos roedores dentro de jaulas,
Transfixados pela ideia do queijo
Que intuímos existir além.

Tão carente de por quês,
Desmaterializo-me em meio aos dias.
O meu peito está aberto às vicissitudes do mundo,
porém vazio para os mistérios da vida.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Último Barco Para Aman

Como milhares de barcos
Guiados por uma tênue crença,
Nosso diminuto brilho
É por mãos protegido,
Ainda que apequenado,
Dos ventos gélidos da indiferença.

Não ousemos mensurar o céu
Pela dimensão singela de uma única estrela.
Todo o sentido reside no espaço
Que se mutina e se aderna entre nós.

Ainda que estas luzes se apaguem,
As nossas rotas se complementarão.
Mãos que se unem na noite.
Faróis que sinalizam nossa própria amplidão.

Despedimo-nos das silhuetas do mundo,
Para no turbilhão destas águas
Encontramos juntos
Uma única direção.


sábado, 24 de março de 2018

A Natureza Fugidia do Ser

Contrapomo-nos à vastidão dos dias
Perscrutando os horizontes de nossa finitude.

Iluminamos os espelhos d'água com a tênue luz de velas
sobre milhares de barquinhos de papel.
É a poesia simples que reside nas estrelas que se pode tocar.

Somos sussurros envoltos pela noite,
Despidos e despojados de um norte,
Debatendo-nos violentamente ao vento
como fitas em uma árvore amarradas.
Em cada fita uma promessa depositada,
em silêncio mantida e permanentemente não realizada.

Até quando barganharemos com o invisível
nestas encruzilhadas dissolutas?

Ecoamos impermanentes e indistintos
neste somatório de possíveis futuros
como estórias que se confundem e se entreabraçam
na composição de um quadro
simultaneamente muito maior
e inferior que nós.

O tempo nos perpassa,
Deixa-nos para trás
aturdidos e inconformes,
Estendendo a mão violentamente
à natureza fugidia do ser.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Os longos braços da Noite

Todos os obelisco se prostraram
Ou ainda se prostrarão
Sob o peso indizível das manhãs.

Glória finda e passageira,
Estas esperanças,
Nossas certezas vãs.

Aonde eu me sento à mesa?
Os comensais ainda chegam e já se vão.

Nas latitudes e longitudes ermas
Tento perscrutar-me,
Mas estrelas enfermas riscam nosso céu
E se afogam docemente ao beijarem o chão.

Vias que se entrecruzam em sombras
E se entreabrem em nós.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Morais de Carvalho

Os quadros estão cobertos por linho branco e traças.
Os cantos acumulam pó.

As portas e seus ferrolhos antiquados estão fechados.
As janelas não mais rangem ao se abrir.

Fotografias em caixas entulhadas.
Fotografias em paredes penduradas.

Os bibelôs indiferentes à fluidez do tempo
Pontuam a topografia inabitável da saudade.

O silêncio agora saúda as manhãs
Conjurando espectros nos vastos pavilhões do lembrar.

Ecos distantes, abafados pelo desbotar dos dias.
O concreto feito abstrato.

Nomes na parede escritos
e nomes por nova tinta apagados.

Os relógios não podem ouvir nossas súplicas.
Suas engrenagens não caminham para trás.

Dilacerado pelo implacável tempo,
Descompassado pelas longitudes que separam
o recordar do viver.