terça-feira, 19 de setembro de 2017

Albedo

A alteia negra e o rouxinol,
Ambos engolfados pela escuridão,
Ambos indistintos no albedo
que reluta em revelar a luz.

Nos fragmentados arredores
e por desconectados corredores,
aflora o mimetismo incauto
dos espelhos distraídos.
Distorcem a natureza elíptica das coisas.

Eu acredito no nada.
e nas suas convicções estéreis
e nos reduzidos limites do possível.

... mas é a ficção que estrutura a vida,
alinhando trilhos invisíveis em direção ao amanhã.

Ancorado no discernimento,
Um a um os malabares caem ao chão.

Como começar a contar novas estórias
quando todos os livros estão em branco?

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Splendor Solis

Os dedos se fecham sobre o arame farpado
Desde a plácida Aurora rubra
Até a inquietude Magenta do Ocaso.

Com as costas dadas para a calidez do Sol,
Procuro estrelas na escuridão das sombras.
Eu sou a face tímida da Lua
Contemplando a fecundidade sóbria da Noite.

Os deuses sussurram em nossos ouvidos,
mas não é possível distinguir-lhes por entre as palavras.

Érebo

Tu afogas todo o brilho das estrelas
ou meramente as esconde por entre as dobras do seu manto?

Teus braços esticados resvalam nos confins do universo.
Dedos enegrecidos com a tinta das partituras celestiais.
Um artíficie perenemente oculto, mas ainda assim presente.

Agora confinado nas profundezas do Tártaro
e banhado pelas águas do Esquecimento.
Uma Força colossal latente
tão ignota de sua magnitude cósmica.

Tu és o outro lado dos buracos negros,
a matéria escura que encadeia as equações e cânticos.

Ó grande deus adormecido,
Consorte da traiçoeira noite,
Pai verdadeiro do Dia,
De tua amplidão desoladora,
brotam as raízes do possível!

Que o meu silêncio seja a sua palavra.


Monotom

A tinta acabou.
As palavras rolam soltas ao encontro do silêncio.
Este é o solene vazio que preenche as catedrais
e que torna a toda fé possível.

É preciso que algo brote desse nada.
Por mais que a natureza abomine o vácuo,
somente nele podemos erigir nossa morada
e nela capturar o etéreo dedilhar de cordas
ecoando eternamente o divino monotom
de algum longínquo Big Bang.

Toscos são os pilares
que sustentam o infinito
sobre nossas cab

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dragas

É o peso que sulca os caminhos e discerne as direções.
O chão carece do sentido que no horizonte abunda.

Dentro dos gravetos existe a raiz efêmera do fogo,
mas ainda sim cedem ao apelo das botas
com seu marchar decidido e sua violência orquestrada.

É a tensão que nos remete do impreciso para o exato,
como se as cordas de nossa própria existência
fossem por um demiurgo puxadas
para nos afinarmos ao uníssono desespero do mundo.

A escuridão sucede o silêncio.
Ausência e apatia amalgamadas
de forma singularmente perene.

Em meio aos nossos pesares privados
suplicamos por meio do sub-texto e do silêncio
por uma platéia e por aplausos
que validem nossas dores
e os nosso tantos amores
tão estupidamente burgueses.

Nós somos o sal e somos Cartago.
Somos o intransponível Rubicão transposto
pelos pés de um melhor César 
que há de um dia vir.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sorria

Algumas pessoas atravessam as ruas
muito mais lentamente que outras.

Algumas ruas nos atravessam
muito mais intensamente que pessoas.

Algo se esconde na dilatada natureza do tempo
como pequenas dobras imperfeitas
nos exímios edredons estéreis
dos melhores hotéis.

Nas escadas rolantes dos metrôs ou shoppings
perdura o pleito de Sísifos mecânicos
sem que ao menos um pé lhes agraciem
suas corrugadas costas metálicas.

Mapas pendurados em complexos industriais
sinalizam com precisão cartográfica
nosasa localização exata e como dali fugir
sem que, no entanto, ninguém o faça.

A verticalidade dos elevadores
não contemplam toda a latitude do pensar.

Existe algo tão profundamente óbvio
que ainda assim nos escapa o entendimento.

Pois afinal sorrimos por sermos filmados
sem que exista um digno espectador
para toda a alvura de nossos dentes.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Solstício

Venha placidamente,
equilibrando-se sobre um equador imaginado,
com os pés beijados por uma maré vazante
e a solidão indelevelmente estampada no olhar.

Venha com o furor de um Sol poente,
delineando nas sombras tênues
os limites imprecisos do possível.

Venha devagar ou rapidamente,
com o anseio lhe estufando o peito,
sabendo que estas ruas estão abertas,
mas sem um algo que lhe indique a direção.

Com os passos apertados,
Com sua cabeça pendente,
Com o peso que lhe é cabido
repousando arduamente sobre os ombros.

Venha cedo ou venha tarde,
mas por favor de alguma forma venha.

Para trazer a luz de um novo dia
e cerrar as cortinas
sobre a noite que existe em mim.