sábado, 11 de fevereiro de 2017

Oração Para os Suicidas

Você levantou o véu
buscando o conforto nas promessas de um novo mundo
e, sem saber o que o outro lado lhe reservava,
foi recebido solenemente pela Escuridão.

Como os antigos navegadores,
procurando novas rotas para as Índias,
você também buscava um caminho
através do qual os seus pesares
não mais lhe pertencessem.

Seu norte já não era verdadeiro.

A dor lhe impulsionou
para muito além da cartografia do conhecido.
Você esteve sozinho em seu momento mais escuro.
Ninguém testemunhou a vastidão de seus oceanos
ou a sufocante altura da sua solidão.

Suas falésias foram esfaceladas pelo tempo,
cinzeladas pela constante repetição dos dias
e, em seus diminutos horizontes,
o único passo possível seria o derradeiro.

O meu coração é tão pesado quanto o seu.
As minhas esparsas preces lhe pertencem.

Aquela velha parede foi pintada de branco.
Nossos nomes, com gesso e telha escritos, foram apagados,
mas eu estou aqui e você não.
Em nossa corrida em direção ao infinito,
eu não esperava o segundo lugar.
A sua ausência não me passa desapercebida.

Que o seu coração seja como a pluma,
Que os seus passos sejam largos,
Que o seu caminho esteja cravejado por estrelas.
A sua jornada ainda não acabou.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Letra Velha de Música que não deu em nada

A vida lhe presenteou
com um lugar melhor ao sol
você dispersa as nuvens com as mãos
você não está só

Veja só o que restou
todo fascínio se perdeu
Sua sombra se descolou da luz
o silêncio agora é só meu

nada jamais preencherá
o vazio que ficou
ornado na imensidão da dor
me seguindo até o sol se pôr

A vida lhe presenteou
com um lugar melhor ao sol
você dispersa as nuvens com as mãos
você não está só

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Serpente Alada

Munido de asas, eu posso tocar o infinito.
Deslizar os meus dedos por entre vastidões estelares
e beijar as mil faces de deus.

Como uma serpente, em ciclos e círculos,
rompo a segunda pele, renasço em frágil carne.

Nas trevas circundantes,
não existe sentido,
não existe direção.

O feixe de luz é o caminho,
A ponte que se desfaz atrás de mim.

Como um nó que perpetuamente se aperta,
Como o abraço que jamais se aparta,
A serpente alada traça o seu caminho
nas mais oblíquas latitudes do possível.

Descascar o mundo para em seu centro
encontrar apenas a iridescência cega do desejo,
inundando as ruas,
convocando a mariposa às chamas,
sussurrando violentamente o indizível
nos ouvidos moucos da solidão.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Escumas do Tempo

Obscurecidos pelas escumas do tempo
Como a madeira trazida pelas águas
E abandonada em areias de alvura impossível.

Estaticamente esperando em arredores mutáveis,
Contemplando uma geografia redefinida pelo invisível
Como o tempo, o vento e a circularidade infindável das marés,
Cinzelando os costões mais altos e belos
Nas regiões mais limítrofes do Real.

Desbastados do infinito por mães gentis.
Renascidos no Indizível pela terceira Parca.
No Princípio havia o Verbo
E no Fim não havia Nada.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Passageiro

Preciso morrer
Para renascer das escumas e escombros
De um velho eu.

Eu me trouxe às bordas do mundo,
Mas não pude transpô-las.
Eu acedi ao afiado fio,
Mas não consegui libertar a carne.

O ponto estático ao centro é o berço do infinito,
Onde perpetuamente reencenamos nossos erros.

Contemplando o Oeste com olhos de adeus,
Renascendo ao Leste com propósito renovado.

Náufrago

Eu me desnudo
E me desapego do senso de controle.
Eu estou à mercê das marés
Como a garrafa e a mensagem selada
Arremessada em direção às rochas
e costas desconhecidas.

Todos os faróis se apagaram.
As estrelas emudeceram seu brilho.
As bússolas não apontam para o norte verdadeiro..

Em um arquipélago de possibilidades reduzidas,
Improvisa-se uma morada.

Tão entregue como criança nos braços de mãe,
Sendo ninado pelos sôfregos beijos da solidão.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desnudado

Eu preciso de alguém que eu possa chamar de lar,
Para deacansar meus ossos cansados
E deixar minhas surradas suturas cicatrizarem.
Quero ouvir sussurado em meus ouvidos agredidos
Que tudo vai ficar bem
E que eu nâo preciso mais me preocupar.

Estou cansado de ficar na chuva
Arrastando uma cruz de pesares pela lama
Em diminutos e concêntricos círculos.

Desnudado pela angústia,
Procurando um norte verdadeiro,
Só encontro no silêncio dos Querubins,
A dimensão da minha própria dor