quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Verniz e o Vazio

Quando tudo que se tem é tempo,
tudo que se têm escorre por entre os dedos
como areia de praias de outrora.

Mãos vazias e suplicantes
estendidas idiotamente
em direção ao horizonte
clamam por respostas
que jamais viriam.

O ensimesmamento é uma armadura.
Toda dor é uma coroa.
Somos os mais garbosos cavalheiros
em defesa e serviço da estupidez humana.

Estamos nus e desprovidos
e mesmo assim
nunca estivemos mais distantes
de nosso recôndito lar.

A conformidade ou a revolta
oscilam estupidamente
como uma sucessão
de reis ou marés.

Nossas vidas,
como uma comédia de costumes,
apresentadas perante
os enuviados olhos
da solidão.

As sombras estouram-se
além dos torpes limites do possível.

e ainda assim estamos sós,
olhando de fora pra dentro
e nos destruindo com a mais agressiva indiferença.

Testemunhe o definhar no tempo
e jamais nos diga
que foi tudo
em vão.

O Verniz do Sentido
fala mais alto
que o Vazio
da Razão.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Silêncio que Sucede a Música

Tão gasto e desbotado como uma nota esquecida
nos bolsos de um velho casaco,
mas ainda sim, com algum valor.

Eu aliso a pinturas das paredes
descascando a tinta dos cantos
para camadas ocultas revelar.
Mas o tijolo e o concreto eu nunca alcanço.

Ouço o ranger débil das dobradiças e fechaduras
perturbando a notívaga unidade do sono.
De olhos fechados eu enxergo tudo que ao Limiar escapa.

Jogamos nossas cabeças para trás
quando a ciranda repentinamente se acelera.
Nós somos a tolice desses céus borrados
sustentados tão somente
por pés desorientados e recalcitrantes.

Por isso escrevo o meu tnome
em troncos seculares
para escapar da minha finitude.

Nós somos o silêncio que sucede a música.
A palavra que escapa da garganta
para morrer indiferente na multidão.

Nada nunca muda.
Nada nunca nos mudará.
Nossas vidas são como a trajetória fria e fixa de estrelas.

Os nossos reflexos estão desbotados.
Nossas sombras se apequenam
perante à transfixa Aurora das Dores.

O Infinito cretinamente nos perpassa






... e ficamos para trás
como crianças desgarradas
tateando em vão na escuridão
em busca de um alguém
que nunca esteve lá.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Novas Chaves

Os livros já estão nas caixas
Espalhadas pela sala e a cozinha.
As paredes não mais se contentarão
Com a nossa companhia.

Eu não consigo achar.
Aonde poderia estar
Aquela nossa
Fotografia?

Tudo estava bem.
Nada me contém.
Novas chaves
E incertezas.

Estava eu além
Ou um tanto quanto aquém
De todas essas
Pequenezas?

Mas tudo irá passar.
Tudo irá mudar.
Se tudo muda,
Eu me mudo também.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Efêmeros

Outra onda,
Outra pegada apagada.
Estórias interrompidas
e outras tantas inacabadas.
Quem vai, por fim,
se lembrar de nós?

Em folhas amarelas
e em páginas viradas,
Por quanto tempo devemos
esperar aqui sós.

Em horizontes longínquos,
Além de intanģíveis morros uivantes,
Pra sempre consumidos
 por um desejo atroz

Por um algo que espreita e paira
Muito além do reto caminho,
a poucos centímetros
ou a quilômetros de nós

Mas nossos braços curtos
e nossos desejos dissolutos
Hão de nos guiar como um velho farol.

Velejo com a tormenta
em meio a oceanos profundos
Em direção ao mais solitário Atol.

Sobre as areias mais finas
e sob a indiferença divina,
Quem poderia um dia se lembrar de nós?

Tudo é tão impermanente,
Nossos atos tão inconsequentes.
Os pés que tocavam a areia,
Já não tocam mais o chão.

Quem vai, no fim,
se lembrar de nós?

De nossos rostos sem forma.
De nossos corpos sem peso.
Do vazio que delineia o átomo.
De nossos corações incognoscíveis por Deus.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Camisas Verdes

Ruas amplas,
Peitos largos e
Passos fortes.

Uma marcha que oprime os poucos
e exprime a razão de loucos
numa página virada e amarela
de nossa história azul e verde.
Entre indistintas monofonias regurgitadas
de horizontes e possibilidades reduzidas,
Tudo parece simples e possível.
Tudo se endireita.
 Tudo se estreita.
Tudo, de forma tão direta, mente.

Por trás dos olhos azuis de meu avô
brilharam intensamente as labaredas do ódio,
mas nada brilha por trás dos meus.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Penas

Ao alto,
com as mais hercúleas pretensões.

Desacelera, porém, e
pende suspensa
por um breve
momento
antes
da
q

u


e



d




a

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

E se tudo fosse um jogo no qual as peças são todas guardadas ao final? 
E se as palavras não tivessem peso e fluíssem indissolutas
de nossos mais amargos âmagos aos nossos melhores e mais amados?

Como seria ser exposto
pelo que se é ou pelo que se pensa
ao invés do fino verniz cultivado pelo costume?

Como seria ter as nossas entranhas expostas
na realidade gutural do que são
ao invés de ocultas na leveza imprecisa
do que os sentimentos pensam ser?

Existe algo primal no cerne de nossa humanidade
que luta e sobrepuja até o melhor de nós
quando nossa escuridão se torna demasiadamente profunda.

E se todo o rancor e a coragem
se amalgamassem em algo maior
do que jamais pensamos ser possível?

Como seria
poder encontrar no outro
um porto seguro
para nossas imperfeições?

Como seria
poder ser o espelho e a verdade
para os que não enxergam suas próprias faces?

E se abaixássemos nossos punhais?
E se desatássemos nossas grevas?
Entreguemo-nos então de forma serena e plena
ao melhor que existe dentro de cada um de nós.

A falta que os outros nos fazem
é o reflexo da falta que também lhes imputamos.

O amplexo vazio da solidão
não nos torna melhores.

Como criaturas sem criadores,
Nós não devemos nunca nos bastar.