segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Estranho Atrator

Como o pode o Sol ser tão claro
em um dia tão frio e cinza como esse?
Somos remetidos a algo divino e débil
que nos confronta nos recantos dos espelhos.

O exército de manequins em sua marcha estática
equidistam uns dos outros na largura certa
dos braços que lhes faltam.

Tudo ruma de forma inexorável ao centro
sem que nada nunca chegue lá,
Como se um estranho atrator
puxasse as linhas do invisível
para se fazer presente
nos espaços recém desocupados
e no torpor recôndito da solidão.

Exumemos os corpos dos deuses
para com seus ossos erigirmos
nossa morada.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Resplendor

A estrada de terra e areia cerceia o rio.
Casas cada vez mais esparsas 
fazem paralelo aos trilhos uniformemente espaçados
enquanto o mato e o nada engolfa o resto.

Nossas vidas se desfazem
como costuras soltas puxadas
pelas meticulosas mãos do tempo,
mas o minério flui constante
do seios da terra até os costões do mar.

As pessoas se dobram e quebram pelo caminho,
mas o ferro suporta todas as coisas
e o ferro galga todas as distâncias.

As pequenas pelotas de minério caem por entre os trilhos
e brilham sob o sol do meio dia como estrelas 
de um firmamento invertido.

Somos como deuses ao avesso, 
nossos nomes conscritos
nas finitas páginas
do Livro dos Dias.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Odisséia

Todo silêncio suplica por respostas
quando os lábios dos ídolos já não se movem mais.
A apatia do Olimpo foi o berço da Razão.

Mas nos escuros e longos corredores
de nossa mente bicameral
ainda ecoam o largo riso de deuses
como espumantes ondas a se chocar
nos arrecifes da loucura.

Como retornar à Ítaca
se a razão nos priva do sentido
e o sentido nos priva da razão?

O Trono está, pois, vazio.
O Anjo esconde a sua face.
O véu pende mais pesado do que antes.

Nossas preces são levadas
pela radiação cósmica de fundo
até os limites do Universo
onde celebramos nossa magnífica irrelevância.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Ávila


A áurea lança ao chão prostrada.
Rufla o Serafim as suas asas
e as chamas do êxtase por fim se apagam.

Teresa no frio chão treme.
Em fecunda escuridão
gesta as benesses dos que se calam.

Em Clerestórios e Vitrais
nunca incindiu a verdadeira Luz.

Nas diminutas dimensões da clausura
germina mais o espírito
do que na amplidão da Nave.

sábado, 4 de abril de 2015

Passaporte

Segue do abismo
As mãos sombrias que abrem a porta,
Caminho cravejado de estrelas
Onde o Infinito nos toca.

Dissipam as Brumas.
Dormindo eu me apercebo,
Ao despertar eu me recordo.
Adorno a cabeça com a Coroa da Memória.

Oneiros,
Sombrio Ártifice dos Sonhos,
Conceda Significado e Forma
Ao Mistério Circundante.
Permita-me passagem pela Estrada Escura
Pois porto em mim a Luz do Discernimento,
o Sagrado Berço do Saber.

Por Números, Sigilos e Nomes,
Eu Aparto os Véus que separam
a Noite do Dia
e o Dia da Noite.

Meus Pés agora sangram
sobre a Navalha que distingue
o Sonho do Real.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Macaé

Eu bato à porta pelo lado de dentro.
Penduro as chaves pelo lado de fora.
Este é apenas outro canto onde a poeira mora
e que insistem em chamar de meu.

Não estando lá, tampouco estou aqui,
a muitas milhas do lugar onde devo dormir.
Eu não quero ficar.
E eu não sei como sair.

Pois chegar virou sinônimo de partir,
partir-me em migalhas
que ficam pelo caminho
para marcar a direção de casa.

"Aqui" é apenas uma variável
definida em função do tempo.
Já não sei mais se volto,
Já não sei mais se vou.

Por isso espero "aqui" sozinho,
pelo mês que me levará pra casa,
entre pastos e duplicações de via
transcorrem os meus últimos dias
nos quilômetros que separam
o Rio de Macaé

domingo, 8 de setembro de 2013

música 6

Oneiroi (Sonhos)

Segue do abismo as mãos sombrias que abrem a porta
Caminho cravejado de estrelas e lágrimas
Onde o Infinito nos toca

Em espirais, ao centro sempre a orbitar
Revelando seus doces subterfúgios
Enquanto a manhã não vem nos separar

Enlace efêmero, tão intoxicante e verdadeiro
Ao menos para esta alma que se esqueceu
do que havia lhe sido revelado primeiro

Não importa o quanto dôa e o quanto ainda dói
Seremos sempre Oneiros de Oneiroi.

p.s.: a música que o glauber fez em cima desse texto foi uma das coisas mais belas que eu já ouvi em minha vida