quinta-feira, 10 de março de 2016

Novas Chaves

Os livros já estão nas caixas
Espalhadas pela sala e a cozinha.
As paredes não mais se contentarão
Com a nossa companhia.

Eu não consigo achar.
Aonde poderia estar
Aquela nossa
Fotografia?

Tudo estava bem.
Nada me contém.
Novas chaves
E incertezas.

Estava eu além
Ou um tanto quanto aquém
De todas essas
Pequenezas?

Mas tudo irá passar.
Tudo irá mudar.
Se tudo muda,
Eu me mudo também.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Efêmeros

Outra onda,
Outra pegada apagada.
Estórias interrompidas
e outras tantas inacabadas.
Quem vai, por fim,
se lembrar de nós?

Em folhas amarelas
e em páginas viradas,
Por quanto tempo devemos
esperar aqui sós.

Em horizontes longínquos,
Além de intanģíveis morros uivantes,
Pra sempre consumidos
 por um desejo atroz

Por um algo que espreita e paira
Muito além do reto caminho,
a poucos centímetros
ou a quilômetros de nós

Mas nossos braços curtos
e nossos desejos dissolutos
Hão de nos guiar como um velho farol.

Velejo com a tormenta
em meio a oceanos profundos
Em direção ao mais solitário Atol.

Sobre as areias mais finas
e sob a indiferença divina,
Quem poderia um dia se lembrar de nós?

Tudo é tão impermanente,
Nossos atos tão inconsequentes.
Os pés que tocavam a areia,
Já não tocam mais o chão.

Quem vai, no fim,
se lembrar de nós?

De nossos rostos sem forma.
De nossos corpos sem peso.
Do vazio que delineia o átomo.
De nossos corações incognoscíveis por Deus.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Camisas Verdes

Ruas amplas,
Peitos largos e
Passos fortes.

Uma marcha que oprime os poucos
e exprime a razão de loucos
numa página virada e amarela
de nossa história azul e verde.
 
Entre indistintas monofonias regurgitadas
de horizontes e possibilidades reduzidas,
Tudo parece simples e possível.
Tudo se endireita.
 Tudo se estreita.
Tudo, de forma tão direta, mente.

Por trás dos olhos azuis de meu avô
brilharam intensamente as labaredas do ódio.
Nada brilha por trás dos meus.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Penas

Ao alto,
com as mais hercúleas pretensões.

Desacelera, porém, e
pende suspensa
por um breve
momento
antes
da
q

u


e



d




a

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

E se tudo fosse um jogo no qual as peças são todas guardadas ao final? 
E se as palavras não tivessem peso e fluíssem indissolutas
de nossos mais amargos âmagos aos nossos melhores e mais amados?

Como seria ser exposto
pelo que se é ou pelo que se pensa
ao invés do fino verniz cultivado pelo costume?

Como seria ter as nossas entranhas expostas
na realidade gutural do que são
ao invés de ocultas na leveza imprecisa
do que os sentimentos pensam ser?

Existe algo primal no cerne de nossa humanidade
que luta e sobrepuja até o melhor de nós
quando nossa escuridão se torna demasiadamente profunda.

E se todo o rancor e a coragem
se amalgamassem em algo maior
do que jamais pensamos ser possível?

Como seria
poder encontrar no outro
um porto seguro
para nossas imperfeições?

Como seria
poder ser o espelho e a verdade
para os que não enxergam suas próprias faces?

E se abaixássemos nossos punhais?
E se desatássemos nossas grevas?
Entreguemo-nos então de forma serena e plena
ao melhor que existe dentro de cada um de nós.

A falta que os outros nos fazem
é o reflexo da falta que também lhes imputamos.

O amplexo vazio da solidão
não nos torna melhores.

Como criaturas sem criadores,
Nós não devemos nunca nos bastar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ex Machina

Abrem-se as cortinas.
O palco revela apenas uma cadeira
sem alguém que lhe ocupe.

Luzes traseiras projetam longas sombras retilíneas,
traçando do chão ao teto uma via sutil e sacra
por alguém jamais trilhada.

A vítrea pele dos relógios
refletem a aflição nos olhos estampada.
Corações e engrenagens pronunciam-se desordenadamente.

As asas mecânicas nos falham.
As nuvens cenográficas são por demais pesadas.
As auréolas dos santos eram apenas luzes de halogêneo.

Mas certamente há de vir alguém
cuja presença anestesie nosso incômodo.

Certamente há de vir alguém
que justifique a nossa espera.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mormaço

Oculto, mas presente,
pairando indistinto pelos cantos,
sorri um Sol que não se mostra.

Na pele, o suor.
Longos dedos invisíveis se fecham
num sufocante abraço que não se aparta.

Algo paira no vazio além de nuvens
e faz a temperatura se elevar.

Queria ver para virar-lhe as costas,
mas você me rouba toda a doçura do negar.