terça-feira, 11 de outubro de 2016

Passageiro

Preciso morrer
Para renascer das escumas e escombros
De um velho eu.

Eu me trouxe às bordas do mundo,
Mas não pude transpô-las.
Eu acedi ao afiado fio,
Mas não consegui libertar a carne.

O ponto estático ao centro é o berço do infinito,
Onde perpetuamente reencenamos nossos erros.

Contemplando o Oeste com olhos de adeus,
Renascendo ao Leste com propósito renovado.

Náufrago

Eu me desnudo
E me desapego do senso de controle.
Eu estou à mercê das marés
Como a garrafa e a mensagem selada
Arremessada em direção às rochas
e costas desconhecidas.

Todos os faróis se apagaram.
As estrelas emudeceram seu brilho.
As bússolas não apontam para o norte verdadeiro..

Em um arquipélago de possibilidades reduzidas,
Improvisa-se uma morada.

Tão entregue como criança nos braços de mãe,
Sendo ninado pelos sôfregos beijos da solidão.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desnudado

Eu preciso de alguém que eu possa chamar de lar,
Para deacansar meus ossos cansados
E deixar minhas surradas suturas cicatrizarem.
Quero ouvir sussurado em meus ouvidos agredidos
Que tudo vai ficar bem
E que eu nâo preciso mais me preocupar.

Estou cansado de ficar na chuva
Arrastando uma cruz de pesares pela lama
Em diminutos e concêntricos círculos.

Desnudado pela angústia,
Procurando um norte verdadeiro,
Só encontro no silêncio dos Querubins,
A dimensão da minha própria dor

Endereço

Um estranho conforto paira sob a rua
Fazendo as folhas rufarem mais devagar.
Uma chuva fina cobre os carros.
A luz refletida é débil e torta
Mas perfeita em sua fragilidade.

O cinza recai sobre as superfícies
Tornando rombudas as pontas e quinas
Em que insistimos tanto em colidir.

Os cacos são grandes o bastante para serem colados.
As feridas podem, apesar de tudo, ser curadas.

Nós carregamos o peso do mundo
Pois tememos flutuar pra longe
Sem um algo ou um alguém que nos impeça.

Não nos resta nada,
Só esta rua arborizada que se entende
Do infinito aos nossos pés.

Os carros passam devagar.
Ao fundo um pássaro canta.

O sinal està verde
E todos te esperam passar
Por esta rua de mão única
Chamada solidão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Remendados

Punhais cravados ao peito
Mutuamente contorcidos
Por mãos vacilantes
Que buscam ser um algo melhor.

O abraço não se desfaz apesar da dor.

Expostos e escondidos
Por entre os escombros
E remendos que nos restam.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Pairando Alto

A inquebrantável
Unicidade de propósito
Sustenta, por si só, o seu voo.

Asas que jamais retrocedem.
Penas que jamais se apequenam.

Enquanto suas garras
Estraçalham a carne,
Os seus olhos estão voltados
Para seu ninho
Construído em altura extrema
Beirando as bordas do infinito.

Contempla
O falcão
A natureza doce
De sua presa?

Fin

Chuva fina.
Poças nas ruas
Apressam o passo
Do transeunte incauto.

Ele não vem ou vai
A lugar algum.
Mãos nos bolsos,
Cabeça baixa.

Um outro dia
Em um outro lugar
Em que não se encaixa.

As ruas se afunilam em vielas
E ele não tem mais pra onde ir.