terça-feira, 4 de agosto de 2015

Tétis

Do centro em direção às bordas, teço pontes
que continuamente se esfacelam e caem
antes de alcançarem o perímetro almejado.
Nada mais me sustenta.
Nada mais me suporta.

Tão distinto e distante das dores do mundo,
como uma roda que freneticamente gira
sem tocar o chão.

Se dessem-me um ponto de apoio,
eu não moveria este planeta
ou outro astro qualquer.
Poria em movimento
as engrenagens pesadas do meu coração.

Impulsionaria-me em direção aos outros
quebrando a clausura onde habita a pupa,
parindo cor em um mundo de matizes cinzas.

Com a cabeça baixa e ensimesmado
ou com a cabeça erguida e insensibilizado,
Orbito pateticamente em torno de um vórtice negro
que penso haver em mim.

O senso de toque acentuadamente se atrofia
enquanto resplandeço e pairo
afogando-me em um oceano de solidão.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ainda Enfermo

Eu quero a leveza da pluma
e o furor da ventania
para sem propósito
pairar acima
de trivialidades
que imperam sobre 
a triste vida de outros.

Desvencilhar-me-ia do peso
e das circunstâncias plúmbeas
para suspirar em janelas
pelos primeiros e últimos retoques
laqueados pelo Sol no horizonte.

Resplandeceria pleno
sem pompa ou circunstância
quando perguntassem-me
o porquê das coisas
e simplesmente sorriria
dizendo honestamente 
não saber.

“Pois da vida existem lados mais belos
e disso deveria saber
pois belos eu os vi,
mas tão infrequentemente”

Elipses

O pêndulo pende estático por um segundo antes de voltar
com furor e propósitos crescentes em direção ao centro
formando elipses em torno de um sol secreto
que arde forte no peito dos que anseiam.

Com idas e vindas pontuadas pela apatia nos extremos,
Orbitamos em torno daquilo que não podemos ter,
Incompletos e imperfeitos em um jogo de fazermo-nos humanos.

Guiados pelo cabresto do desejo,
puxados simultaneamente para fora e dentro,
até o dia que a corda se romperá
para então cairmos
continuamente
sem jamais
tocarmos
o chão.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Trifolium

Pensei ter visto algo,
um algo que não estava lá,
concedendo-me o beneplácito régio
de, ao menos por um instante,
habitar em alturas rarefeitas
e sonhar.

Na infinitude de outros trevos,
num jardim que se estende
entre o espaço que separa
os inícios dos começos,
pensei ter visto um algo,
um algo que não estava lá.

Uma porta que se abre.
Uma mão que se estende.
A folha que me falta.
Um vazio que se preenche.

Qualquer coisa que me eleve
além dessa vida trifoliada.

domingo, 5 de julho de 2015

Alambrados

Os balanços movimentam-se sozinhos na memória.
Ferro, madeira e risos mesclados
em incontáveis e indistintas tardes
que padecem plenas sob a luz tênue
dos primeiros pirilampos.

Os dedos se fecham nos elos do alambrado
erigido solene sobre o cemitério da infância.

Nossos rostos são acariaciados
pelos patéticos beijos
de Sóis de outrora.

Somos eternos espectadores
de um filme que se esmaece e esvai,
mas nossas mãos permanecem sobre
a grade do alambrado,
atendo-se firmes
quando tudo que nos resta
é a luz de vagalumes intangíveis
pontuando a plácida escuridão derradeira.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Fraturas

Na porcelana que cai,
uma unidade que se divide
e um valor que se subtrai.

Os cacos se multiplicam e se distanciam
como uma símile microcósmica
dos primórdios de um universo.

Todo começo
marca o fim de um algo
ou de um alguém.

As feições fraturadas
da boneca chinesa
olham estrabicamente
para uma porta
e uma outra além.

Spleen

Anseiam as gotas pelo chão
enquanto escorrem
vagarosamente
vidro abaixo?

Na janela,
meu reflexo
e a chuva
indistintos.

Ventos fortes
golpeiam as laterais da casa.
É como se pudesse sentí-los
no centro oco
dos meus ossos frágeis.

Mas as intempéries ignoram
esta mesa vazia e estes farelos de pão.

A sujeira se acumula pelos cantos
enquanto o mundo lá fora
é renovado,
ungido
e inconspurcado.