quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Penas

Ao alto,
com as mais hercúleas pretensões.

Desacelera, porém, e
pende suspensa
por um breve
momento
antes
da
q

u


e



d




a

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

E se tudo fosse um jogo no qual as peças são todas guardadas ao final? 
E se as palavras não tivessem peso e fluíssem indissolutas
de nossos mais amargos âmagos aos nossos melhores e mais amados?

Como seria ser exposto
pelo que se é ou pelo que se pensa
ao invés do fino verniz cultivado pelo costume?

Como seria ter as nossas entranhas expostas
na realidade gutural do que são
ao invés de ocultas na leveza imprecisa
do que os sentimentos pensam ser?

Existe algo primal no cerne de nossa humanidade
que luta e sobrepuja até o melhor de nós
quando nossa escuridão se torna demasiadamente profunda.

E se todo o rancor e a coragem
se amalgamassem em algo maior
do que jamais pensamos ser possível?

Como seria
poder encontrar no outro
um porto seguro
para nossas imperfeições?

Como seria
poder ser o espelho e a verdade
para os que não enxergam suas próprias faces?

E se abaixássemos nossos punhais?
E se desatássemos nossas grevas?
Entreguemo-nos então de forma serena e plena
ao melhor que existe dentro de cada um de nós.

A falta que os outros nos fazem
é o reflexo da falta que também lhes imputamos.

O amplexo vazio da solidão
não nos torna melhores.

Como criaturas sem criadores,
Nós não devemos nunca nos bastar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ex Machina

Abrem-se as cortinas.
O palco revela apenas uma cadeira
sem alguém que lhe ocupe.

Luzes traseiras projetam longas sombras retilíneas,
traçando do chão ao teto uma via sutil e sacra
por alguém jamais trilhada.

A vítrea pele dos relógios
refletem a aflição nos olhos estampada.
Corações e engrenagens pronunciam-se desordenadamente.

As asas mecânicas nos falham.
As nuvens cenográficas são por demais pesadas.
As auréolas dos santos eram apenas luzes de halogêneo.

Mas certamente há de vir alguém
cuja presença anestesie nosso incômodo.

Certamente há de vir alguém
que justifique a nossa espera.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mormaço

Oculto, mas presente,
pairando indistinto pelos cantos,
sorri um Sol que não se mostra.

Na pele, o suor.
Longos dedos invisíveis se fecham
num sufocante abraço que não se aparta.

Algo paira no vazio além de nuvens
e faz a temperatura se elevar.

Queria ver para virar-lhe as costas,
mas você me rouba toda a doçura do negar.

Aprendiz

Acidentes acontecem
e assim veio você.
Uma dádiva sem espaço para a vida.
Com abraços recebida,
mas sem convites pra viver.

Você mudou meus planos.
Vejo-lhe como quem olha correntes.
E agora aonto os anos
de meu carrasco doce e inocente.

Testemunho seus centímetros se ajuntarem,
o seu pouco cabelo avolumar.
Indeciso, deixo os momentos passarem.
Seu riso hoje me fez chorar.

Você vai amadurecendo,
Seus olhos perdendo o brilho
Questionando no silêncio a distância.
Reconheço relutante o meu filho.
Arrastando-me em sua lembrança,
Crescerá para ser melhor
do que eu fui?

Neste tabuleiro somos cavalos e bispos
impedindo nossos jogos perfeitos.
Meu filho, meu adversário,
você mora em meu peito.

[música]

Siga o riso,
siga o choro,
siga o rastro da manhã.

Siga o sábio,
siga o tolo
e me digas se és sã.

Siga o mundo,
siga o povo
ou o silêncio da maçã.

Siga tudo,
siga todos
e me digas se és sã.

Eu abri as portas,
eu olhei nos cantos,
me perdi em seus olhos
e contei os anos.

Calais

Águas turvas.
Ondas altas.
Braços fortes.
A sua falta.

Atravesso o canal a nado
para sozinho atravessar a minha noite.
Encontro-me em meio ao mar calado.
O vento leste é o meu açoite.

Barcos me passam pelo barlavento.
Eu vejo as luzes de Calais.
Em terra firme encontro o meu contento,
deixo somente mágoas para trás.