sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Exegetas

Os meus presentes estão aqui,
Gestos vazios e impessoais
Mimetizando afeição.

Eu lhe estendo a mão,
Mas me contradigo com os pés.

O meu amor é constitucionalmente codificado
E paradoxalmente condicionado
Pela qualidade pétrea de meu coração.

Nenhuma exegese se sustenta.
Nenhum exegeta se satisfaz.
Um incoerente livro aberto
Definitivamente permutado
Por um módico de silêncio
E um outro módico de paz.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

As amarras de seda

Eu me recolho, mas não me tranformo,
Como a pupa presa entre a asa e o chão.

Eu me recolho, mas não me encontro,
Perdido por entre o abraço vazio da solidão.

Por vinte anos gestando um melhor eu,
Cantando solene o hino da ilusão.

Eu olho os outro e não me reconheço.
Os outros me olham e não me reconhecerão.

A mão enxerga mais que o olho
Quando perdura tardia a minha escuridão.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Vazio Celeste

Rompido o fio, desfaz-se a trama,
Uma pluralidade desconexa de pessoas,
Reunidas apenas por uma mesma origem helicoidal.

Sentimo-nos tentados a enaltecer o passado,
ressignificar a inospitalidade do presente,
mas na nua realidade das coisas
houve beleza na mesa posta do café,
nos dedos tão longevamente entrelaçados,
no chá que pontuava as noites.

A horta e as samambaias entreolham-se em silêncio,
Os nossos olhos agora molham os dias.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Albedo

A alteia negra e o rouxinol,
Ambos engolfados pela escuridão,
Ambos indistintos no albedo
que reluta em revelar a luz.

Nos fragmentados arredores
e por desconectados corredores,
aflora o mimetismo incauto
dos espelhos distraídos.
Distorcem a natureza elíptica das coisas.

Eu acredito no nada.
e nas suas convicções estéreis
e nos reduzidos limites do possível.

... mas é a ficção que estrutura a vida,
alinhando trilhos invisíveis em direção ao amanhã.

Ancorado no discernimento,
Um a um os malabares caem ao chão.

Como começar a contar novas estórias
quando todos os livros estão em branco?

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Splendor Solis

Os dedos se fecham sobre o arame farpado
Desde a plácida Aurora rubra
Até a inquietude Magenta do Ocaso.

Com as costas dadas para a calidez do Sol,
Procuro estrelas na escuridão das sombras.
Eu sou a face tímida da Lua
Contemplando a fecundidade sóbria da Noite.

Os deuses sussurram em nossos ouvidos,
mas não é possível distinguir-lhes por entre as palavras.

Érebo

Tu afogas todo o brilho das estrelas
ou meramente as esconde por entre as dobras do seu manto?

Teus braços esticados resvalam nos confins do universo.
Dedos enegrecidos com a tinta das partituras celestiais.
Um artíficie perenemente oculto, mas ainda assim presente.

Agora confinado nas profundezas do Tártaro
e banhado pelas águas do Esquecimento.
Uma Força colossal latente
tão ignota de sua magnitude cósmica.

Tu és o outro lado dos buracos negros,
a matéria escura que encadeia as equações e cânticos.

Ó grande deus adormecido,
Consorte da traiçoeira noite,
Pai verdadeiro do Dia,
De tua amplidão desoladora,
brotam as raízes do possível!

Que o meu silêncio seja a sua palavra.


Monotom

A tinta acabou.
As palavras rolam soltas ao encontro do silêncio.
Este é o solene vazio que preenche as catedrais
e que torna a toda fé possível.

É preciso que algo brote desse nada.
Por mais que a natureza abomine o vácuo,
somente nele podemos erigir nossa morada
e nela capturar o etéreo dedilhar de cordas
ecoando eternamente o divino monotom
de algum longínquo Big Bang.

Toscos são os pilares
que sustentam o infinito
sobre nossas cab