domingo, 8 de setembro de 2013

música 6

Oneiroi (Sonhos)

Segue do abismo as mãos sombrias que abrem a porta
Caminho cravejado de estrelas e lágrimas
Onde o Infinito nos toca

Em espirais, ao centro sempre a orbitar
Revelando seus doces subterfúgios
Enquanto a manhã não vem nos separar

Enlace efêmero, tão intoxicante e verdadeiro
Ao menos para esta alma que se esqueceu
do que havia lhe sido revelado primeiro

Não importa o quanto dôa e o quanto ainda dói
Seremos sempre Oneiros de Oneiroi.

p.s.: a música que o glauber fez em cima desse texto foi uma das coisas mais belas que eu já ouvi em minha vida

sábado, 7 de setembro de 2013

Golem

Pequeno,
mais do que pensara ser,
tateando feridas na escuridão.
O translúcido amplexo da falta não se aparta
e tampouco deixa-me partir.

Tomo forma.
Delineio em meu rosto
novos sulcos e novas expressões.

Observo calado
dioramas de vidas
dentro das cercanias do possível.
Os dissabores lhes lufam as velas
e anseiam logo por um algo além.

Como criaturas sem criadores
e como criadores sem suas crias,
contemplando todo o peso das escolhas
projetadas nas longitudes plúmbeas
de horizontes equidistantes. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Cerração

A serra segue o vale.
Através do rio, o céu toca o chão.
Pelo caminho eu cerro os punhos
entoando uma última oração.

Em feridas a terra se revela.
O vermelho de uma amarga ilusão.
"Todos se esqueceram dela", sussurrou,
"Fogem do que no fundo são".

E eu não sei mais o que hoje sou,
mas estas ruas ainda são tragadas
pela mesma cerração

Fundações

A princípio ignora-se o som,
o inconfundível estalar das coisas prestes a partir.

As paredes então se riscam com fissuras
que agora, no silêncio, espreitam o colapso.

Diz não querer ficar, tampouco sabe como ir,
querendo estar em qualquer outro lugar
do que nesta morada prestes a ruir.

No silêncio existe dor,
no horizonte compaixão.
Sob este teto há o conforto.
É mais fácil dizer sim
do que em escombros gritar não
.

Tudo repousa em um equílibrio frágil
de um jogo de peças que não mais se encaixam.
Eu queria que tudo fosse fácil,
mas no escuro mãos tateiam em vão.

Doa a quem doer(Música em homenagem, apesar de tudo, a um grande amigo)

Sinceramente espero,
que você esteja bem
existem limites,
mas nós fomos além.

E o ano que viria
apagar essa estória
se desfez em promessas,
se perdeu na memória.

Ruas que me levam
para longe de você,
saiba meu amigo
foi bom te conhecer.

Somente o silêncio
poderia me proteger,
mas palavras são armas
quando vindas de você.

Sem mentiras ou piedade
Doa a quem doer,
doa a quem doer.

Celebração

Segue o Sol
em seu silêncio
sendo sempre
sonhador.

Segue o céu,
sua semente,
sempre certo
de seu esplendor.

Sentimos sempre
sua essência
celebrar
serenamente.

Seu sucessor
a sonhar sua
semente.

Imaginários


Justaponho cacos
e outras coisas pequenas que brilham.
Luzes fracas furam a noite,
adornam as paredes como
pequenas estrelas de estimação.

Uma penumbra plácida me envolve
em um diminuto mundo de livros e fotografias.
Ouço sons que tocam a alma.

Neste santuário protegido,
as janelas se abrem para a vastidão.
Declamo palavras secretas
e errantes sombras se erguem.
Galopo em sua direção.

Ceio uma vez mais
entre velhos amigos.
Brindo-lhes,
estendo-lhes a mão.

Eles conhecem meu nome
e possuem minha afeição.
Despedimo-nos com gestos e símbolos,
pensando nos dias que um dia virão.

O Sol desponta no horizonte
e tudo está bem.
Rompem-se as barreiras eqüidistantes,
um círculo de Mistérios.
Dor,
não existe vida sem.

Paredes Altas


Renuncio as asas
e com os pés toco o chão.
As coisas abstratas,
não mais me guiarão.

Renovada a força,
mas bem perto de ruir.
Esqueço sonhos, luzes foscas,
um novo forte a erigir.

Suas muralhas elevadas
hão de me prender
nas noites delicadas
em que anjos querei ver.

solo fértil, raio fúlgido,
finco mais raízes.
Tão desperto, em mundo lúcido,
abandono diretrizes.

Reentro novo
em terras tristes.
Uma estrada longa,
mas que existe.

Apogeu


Com passos toscos tento prender
a linha que separa a água da areia.
Com Indifereça indelicada,
a colcha de águas serpenteia.

Os pés afundam rápido,
a linha imaginária os volteia.
Se ao menos me arrastasse,
tocaria seios rijos de sereia.

Eu queria apenas fixar o momento
e parir na ausência de movimento
a clareza que me falta.

Dar nomes a todo e cada tormento
e estar para sempre isento
da imprecisão que sobressalta.

Traço grandes linhas na areia
para redefinir a geografia de um Eu.
Olho atento a grande onda que arqueia
destruir meu castelo em meu apogeu.

intruso e ferido persisto.
Onde os elementos se encontram,
serei eu um dia benquisto?

Santuário

Santuário,
sem saber, perpassei os seus umbrais.
Em meio às sombras me achei,
contemplando seus vitrais.

Aqui o amor fez sua morada
e para sempre nos deixou.
Não pude mais esperar
por aquilo que me negou.

Música

Anjo bom,
me ensine a ser melhor
do que eu fui ou sou.
me ajude achar alguém
que saiba escutar
quando as palavras
todas se acabarem.

Como um heliasta,
graças eu darei
em todas as manhãs
ao seu lado.
e eu me encontrarei
esperando as flores
desabrocharem.

Em altitudes rarefeitas
você se encontra
tão distante e fria
minha estrela guia
eu queria tanto te beijar.

Ruflam asas intransponíveis
"me levem até ela"
e não me deixem cair
sem que antes em sua luz
eu possa me banhar.

Soror

Em algum lugar
eu sei que alguém espera
por um outro alguém a lhe esperar.

Soror em solidão,
enxugue suas lágrimas
eu irei lhe amparar.

Seremos sempre perdidos.
O mundo  não nos quer.
Não importa o que tenha ouvido,
serei quem você quiser,
mas escuta quando digo,
nunca estarei aonde estiver.

Nos buscando sempre fugimos,
nos tornamos quem devemos ser.
Soror em solidão, por favor,
me ensina a me esquecer.

Carta para uma Ilustre Desconhecida

Por vezes me pergunto onde você está. Posso sentí-la muito longe de meu caminho, talvez no horizonte, mediando o abraço entre o céu e a terra, mas irremediavelmente distante demais para se tocar e perto demais para se esquecer.

Posso sentir as mais delicadas nuances de sua alma se desvelando nas agridoces canções entoadas quase religiosamente por uma ruiva num piano. Nestes momentos a vida se torna profunda e repleta de um sutil assombro. Nada parece fazer mais sentido e não posso mais diferenciar minha essência da sua. O tempo pára por um eterno segundo e impregna o mundo de um melancólico lirismo. Tudo é então perfeito.

O mundo, apesar da aparente determinada órbita, segue por estranhos caminhos e eu não posso saber ou dizer se um dia realmente nos encontraremos. Construimos os mais belos castelos quiméricos e esperamos de uma forma ou de outra que se tornem realidade. Continuamos a procurar um pelo outro pelos aposentos de palácios astrais, seguindo pegadas efêmeras que sempre se extinguem ao amanhecer.

Muitos já experimentaram a profundidade desse amor que sentimos, que não move montanhas ou aparta oceanos, mas que somente intoxica e enfraquece, que nunca orienta, somente nos faz sentir uma eterna inadequação. Este amor é o vinho sublime desperdiçado em cântaros quebrados da humanidade. É a própria sombra projetada por Deus sobre sua criação, onde nenhuma estrela guia transita, nos deixando perdidos perante a delicadeza de nossa própria Dor, sutil, onipresente e verdadeira, constante e efêmera, da qual abstraímos a própria vida.

p.s.: Vicente, obrigado por resgatar esse texto. Você não sabe como ele é importante pra mim.

Um dia ruim


Pele ornada de espinhos
e olhos ungidos com santidão.
Devoro suas dores,
delas construo morada.
Dedos insidiosos se insinuam nus
em um corpo só.
A traição do frágil dói mais
porque suscita o perdão.

No Silêncio


No momento mais lúcido me encontrei sozinho.
caminhando por trás de luzes fortes.
O mundo se abriu
como um livro que não possui respostas.

Em cada rosto vi um sorriso ou seu vestígio.
As ruas ficaram largas.
Costas curvadas se fizeram eretas.

Cada coisa encontrou seu lugar
na plenitude de um momento perfeito.

Eu vi o tempo revelar uma sábia face
benfazendo em silêncio,
suturando as dores do mundo.

Meu coração se encheu com música
que ecoa por entre os salões celestiais.

eu estava sozinho,
mas você estava lá.

Tertium Non Datur ( ou O Princípio do Terceiro Excluído )


Tudo segue sua órbita,
super-estruturas
e nexos causais,
como máquina bem lubrificada
que prescinde o entendimento.

Preposições se encadeiam
em um jogo de elegante eloquência,
constituindo alicerces,
delineando matematicamente
os contornos de mundos possíveis,
onde a imprecisão é o confortável
esconderijo da mentira.

Revela-se na alternância
dos valores de verdade,
os sinuosos labirintos
dos argumentos capciosos
de um coração.

Por que nesse universo
de silogismos irredutíveis
deus é uma tautologia
e eu uma contradição?

Por que escrevo


Existem cores que habitam além
do espectro furioso delimitado
pelo o vermelho e o violeta.

Sutis são os arcos e revoluções
traçados pelo vôo inconstante
das asas toscas de borboleta.

Fixar os olhos no horizonte,
e queimar dos dedos a ponta
em trajetória rígida de cometa.

Todas essas coisas permanecem não ditas
até que a tinta as torne sublimes ou malditas.

Conto até o infinito,
rompo o nó da garganta
que um dia segurou o grito.

Um imperativo muito maior do que a vida
e tão inútil quanto grito de torcida.

Escrevo porque o estômago embrulha,
a mente borbulha e o coração marulha.

Não tenho paz e a pena coça.

O Vazio e a Distância

Deveria haver um algo aqui,
mas as luzes todas se apagaram.
Busquei por entre os cantos,
lembranças e lágrimas restaram.

Onde estão os mundos pelos quais um dia lutamos
e as coisas pequenas que nos tornaram quem hoje somos?
Universo desfeito em objetos e sonhos, recusam-se a calar.
Espalham-se entre os cantos,
profanam a memória dos santos
e nos fazem lembrar o quanto um dia fomos.

Lembrar a intensidade de mil sóis
resplandescendo por entre mil anos.
Infinito compresso em um segundo
e este impresso em seus olhos.
Promessas que não seriam cumpridas
e o desfiar dos planos.
Contemplo através das lentes da distância,
como tudo fora tão doce e ilusório.

Deveria haver um algo mais,
mas só restou o vazio e a distância.
Deveria ter sido diferente,
mas agora não tem mais importância.

O Fingir Poético


Às vezes escrevo sem sentir,
bem como às vezes respiro sem pensar.
Pergunto-me se me ponho a mentir
ou se sentimentos persistem no ar.

Preferiria fingir orgasmos do que poesia,
mas transformo rimas fáceis em elegia.

A cabeça pende em vergonha e mesmo assim rio.
Ajusto a métrica com um tanto de malícia
e um outro tanto de brio.

Se me calasse, do que adiantaria?
O desfecho sai melhor do que eu queria.

Vale a pena sangrar sobre todo poema?

Vestal


Vestes alvas, mantos púrpuras,
as seis virgens vestais.
Todas belas, todas puras,
porém uma sempre mais.

Observo-a de longe no átrio em que habita.
Seu coração sagrado também crepita
como o Fogo que no templo jurou manter
por uma Pax Romana que iria se perder.

Casta, doce e frágil,
detentora de segredos,
doadora do perdão.

Portar a luz é fácil,
quando não existem anseios
em seu coração.

Caminho pelos campos violentos
onde repousam suas irmãs.
Por sua deusa enterradas vivas
por escolherem o hoje ao amanhã.

Como podem trinta anos de tristeza
tornar tão sagrado a sua pureza?

Fogos Distantes



Rostos conhecidos,
mais uma vez reunidos
ao redor de fogueira.

Fatos passados,
mais uma vez recontados
como se fossem bobeiras.

Os laços sagrados,
ainda mais apertados
agora juntam poeira.

Agora distante,
quem nunca o fora antes
tenta lembrar

os sorrisos amigos
no mundo perdidos
a desbravar

Os anos doídos
que nos tornaram bandidos
a buscar

Por um algo mais,
uma fagulha de paz
a guiar

Aos caminhos de antes,
quando erámos infantes
a sonhar.

Resoluto,
faço-me inteiro como colosso de entranhas ocas.
Queria ser homem de passos largos e palavras poucas.

A alma arfa e as mãos suam,
o peito arde, as marés mudam.
Olho inquieto para a manhã que se aproxima.
Queria ver de perto como tudo termina.

Senhor da Razão


Contava com o tempo
para amenizar o fardo das coisas,
não para adicionar veneno
ao copo sujo dos trouxas.

Tenho-o como amigo mais velho,
que possui todos os discos.
Tempo, ouço apenas impropérios
quando no fundo falas de riscos.

Toma a porra do carro
e segue veloz sem direção.
Leva-me às ruínas e levezas
além de muros altos de prisão.

Agracia-me com a perspectiva
de ver cada coisa em seu lugar.
Seu amor de puta soropositiva
não é o que vai me salvar.

Queria ter coração pequeno
e a mente entregue às coisas toscas,
mas meu semblante é sereno,
sequer machuco moscas.

Aos poucos risco
o que o que sobrou
de seus discos.

Movimento Imperfeito


É como cravar a faca ao peito
ao contemplar inatingível beleza.
Sinto o peso ao mundo preso,
almejo o martírio da leveza.

Flutuar acima dos sonhos
e com desdém ruas contemplar.
Olhos que somente diminuem,
mas nunca ensinam a voar.

Mas destes cacos intuo a forma
que o mundo há de um dia ter.
Quase tudo foge a norma
neste maculado renascer.

Trapaceio então em jogo
de possibilidades e as mais alvas pretensões.
Virtude pouca é posta à prova,
mas sempre foram minhas as ilusões.

Ponho a mão no peito,
o infortúnio não se estanca.
Mais um movimento imperfeito,
mais uma chave que não abre a tranca.

Ecoam alto
caixinhas de música
em silêncio mais que suspeito.

As roupas novas do Imperador

Palavras que seduzem e inebriam
correm pelo sangue como harmonias perfeitas.
Instigam asas imaginárias
a alçar vôo em novas alturas rarefeitas.

Ouço um nome ecoar por entre mil vozes,
sorrio por saber ser eu.
Sinto-me jogado às bestas ferozes,
pois este alguém se perdeu.

Quero acreditar no que dizem
e mergulhar no abraço frio da vaidade.
Ouvir elogios calculados
no vazio prolongado da maldade.

Pois sei que pelas costas riem
em jogo sujo de comiseração.
Suas conivências e conluios
semeiam exasperação.

Quero um mundo além do eu
e destas roupas novas de imperador.
Nada que avista aqui é seu,
no Reino somente impera a dor.

Caminho Descalço



É a inocência que desarma.
A gentileza o que mantém.
Em seus olhos jaz a calma
que me tornou refém.

O frágil sobrepuja o forte,
aponta-lhe um coração.
Inseguro nasce o sorriso,
matiz rara de perfeição.

Apara a aresta pontuda.
Fecha este corte profundo.
E se tudo agora muda,
mudo também este mundo.

Não são as grandes maravilhas
que me fazem sonhar.
Escalo as mais altas montanhas
para um algo frágil contemplar.

Caminho agora descalço
porque o que mais temo
é te acordar.

Gentileza me tornou grande.

Amar em Silêncio



Queria tanto sussurrar
em seu ouvido
mentiras de amor,
mas eu duvido
que um dia eu vá.

Sua vida, seus erros
são livros que leio,
mas neles receio
não me encontrar.

Sua pele, sua boca,
seu jeito de louca
são frutos que nunca
eu irei provar.

Sinto a distância
e o puir das lembranças.
Esse sonho ridículo
a me afetar.

Eu odeio seu riso,
seu verso impreciso.
A sua memória
me fez chorar

Síncope Sutil


As palavras se borram
como se a tinta
tivesse sido diluída
por vez e vez mais.

Soerguem-se vozes
de recantos serenos
que recontam os pequenos
detalhes de dias atrás.

Ao colo recai um livro
sobre guerras passadas
e novas alvoradas,
um nunca olhar pra trás.

Da tv ligada
surgem imagens brilhantes
como meros coadjuvantes
de um sono que se refaz.

No vazio disforme projeto
os meus medos secretos
e aos poucos me recomponho.

Em síncope profunda,
braços magnânimos se fecham
e esta última barreira transponho.

Incauto como infante bem amado,
recaio em vastidão líquida
e toco na raiz azul dos sonhos.

Celeridade


Arrebentam as cordas vocálicas
e me desfaço com o grito.
Rodas rápidas e aquaplanagem.

A pele prega, estende e rasga.
Esmurro cacos de vidro
pra respirar cartilagem.

Pequenas fraturas
pra doer a mão.
Sem iodo ou frescuras,
apenas doses duplas
de incompreensão.

Rio intrépido e cambaleante.
Refaço lento a conversão.
Cuspo sangue no volante.
O jogo não se enquadra
nessa direção.

Isso deixará marca.
Isso irá doer.
Não existe um algo que desfaça.
Acelerar e esquecer.

Grades de Arame


Sobre este abismo que entrincheira,
queria ter podido estender a mão
antes que um de nós caísse.

Porém esconde-se atrás de plumas
e as palavras que não disse.

Não esperaria que olhasse
para trás e me visse,
mas eu talvez esteja lá.

Com a mão estendida para o vazio
sob chuva fina de
possibilidades esvaídas.

Sabendo ser agora tarde,
com meus passos incertos em
estradas impedidas.

Os dedos se fecham ao redor de grades.
Olhos se perdem na distância doída
de ansear pelas coisas que não se pode ter.

Gritando em Catedrais


É sobre ser pequeno
e ser pisado
quando os que passam
preferem olhar pro lado,
sentados em bancos
duros, retos
e enfileirados.

É sobre ser mandado
levantar, sentar
e ajoelhar-se calado,
prestando obediência cega
aos intermediários
exaltados.

É sobre ouvir resignado
aos credos fabricados
sobre um algo maior
acobertado.

Dedo em riste finalmente levantado
por todo o sangue derramado.
No terceiro dia niguém foi acordado.

Gritando para o alto em catedrais.
A hemofilia estampada nos vitrais.
O sangue corre e não estanca mais.

De fora para Dentro


Reduzido a pequenezas torpes,
fecho-me no lado de fora
e olho pra dentro,
pedindo profusas desculpas por existir
como leve tormento incessante.

Veja a mariposa de asas arrancadas,
contorcendo-se no chão,
anseando por fúria
e anseando por fogo.
Roubaram-lhe a leveza
de pairar indistinta no instante.

Na casa vazia
eu ouços risos roucos,
antes constrangidos
por tragicômicos
embaraços existenciais.

Rio por último,
ninguém se importa mais.

De mim fizeram pouco
por eu ter achado minha sombra
grande demais.

Sumir, Sonhar e Ser


Sumo sempre cedo,
solipsismo sendo o centro.

Sobra sempre sombras
sobre santos céus cinzas.
Sonho ser somente
seguro no sossego.

Estetas sabem ser sozinhos.
Somente somam à sua essência
sombras secas sobre soltos sonhos.

São sensatos em serem superficiais,
sem suturas, sem sintomas, sem sinais.

Sumir e Sonhar.
Sonhar e Ser.
Nunca mais e tudo isso.
Tudo isso e nada mais.

Pois serafins também sujam suas seis asas
com o cimento seco das cidades iniguais.

Velha Bicicleta



Sonhei que andávamos de bicicleta.
Você jogou sua cabeça para trás,
seus cabelos se entregaram aos ventos
e se segurou mais forte.

Milhas se passaram
por paisagens indistintas.
Esforçava-me para ouvir sua música,
mas só conseguia pedalar
em direção ao amanhecer.

Isso logo acabaria,
de alguma forma já sabia.
Tudo o que mais queria
era pra sempre adormecer.

... e mesmo desperto,
eu ainda sinto
os seus braços.

Sociofagia


Sentam-se os tolos à mesa.
Sobre seus colos, guardanapos brancos se escondem.
Coroam com seus seus risos
a sutil torpezas das convenções.

Por entre as frestas da conversa polida,
Resvalam os olhos em tudo que ao outro pertence.
Excretam uma asquerosa bile,
acompanhamento perfeito para mentiras e faisões.

Os garfos e facas colidem
em dança afetada regida por pretensa etiqueta.
As gafes alheias rapidamente corrigem
para que as suas próprias sejam aceitas.

Quando um nome, uma vida, ao prato tomba,
Olham pro lado e estendem talheres.
A boca, mesmo cheia, ainda zomba.


Solipsista


Meus pés perdem o chão
para a teleologia,
rejeitando o abraço frio
da epifenomenologia.

Solilóquio grandiloquente
sobre solipsismo inconsequente.
Rasga o grito, a indiferença.
As pedras sonham seus mundos
em ciranda certa de postulados,
causas e consequências.

Milhões de umbigos são só meu sonho.
Até as pedras me acham enfadonho.

Degredo


As locomotivas anunciam sua impaciência
em deixar pra trás esse solo tão cinza.
Pés se atrapalham, mãos se empurram.
Amontoam bagagens, os assentos se curvam.

Olho para o longe
antes que partir me atinja.

Todos se vão,
ninguém nunca chega.
Rangem as rodas e as vidas
em uma pequena estação sem nome.
Nos braços destes montes inquietos,
a cidade definha e agora some.

Eu a vi perto dos trilhos
desta velha ferrovia,
esperando sob a sombra
de um alguém que não viria.
Em seu vestido azul,
com seu sorriso inigual,
contando os últimos vagões
de uma distância sentimental.

Abissal


Seu abraço é âncora que me guia
à profundezas desconhecidas.
Onde todo o azul se escurece
é onde farei minha morada.


Minha rota retilínea
interrompe o dançar dos peixes,
pois sou um estranho em seu mundo,
e lhe peço,
não me deixes.


Contrasto a quietude profunda
com a fúria do topo
e me entrego a algo maior
por ter eu perdido o jogo
mas encontrado meu lugar na vida.


Sonho estranho,
azul e sereno.
Não me lembro de jamais
ter-me sentido tão pequeno.


Com os pés presos
à sua frieza férrea,
escapa-me um último suspiro
de minhas vias aéreas.

Complementares


Fiz-me forte para tomar-lhe o peso
pelos anos posto sob suas costas nuas.
Sua fragilidade espelha a minha
Suas lágrimas não são só suas.
Quero quebrar suas quedas
e sarar suas dores.
Calçar-lhe os passos,
não importa aonde fores.

Seu coração espiralado bate mais forte,
ter suas mãos entre as minhas é achar meu norte.
Pressinto na angústia o conforto do abraço,
reconstruo seu riso, suavizo-lhe os traços
Com minhas tolices e insensatezes,
porque eu te quero,
porque eu te amo.
Pois me vi em ti
e contigo vi
passarem os anos.

Procissão

Pés descalços se arrastam pelo chão
passos lentos,
ombros largos,
seus irmãos.

Queima a cera, conta o terço, eles andarão
sobre as cinzas
e as tintas
em sinal de adoração.

Segue a frente a cruz, o santo e o pão
Chora velha,
sangra carne
pela sua salvação.
Queimam os círios, o martírio e a santificação
Povo triste e sofrido,
a cruz,
o prego
e o perdão.

Veja a igreja em silêncio na escuridão
Pare os pés,
corte os cantos,
aqui termina a procissão.

Impermanência



Hoje joguei fora os meus livros
e me despedi de uma boa parte de mim.
O armário vazio caçoava-me
por ter desistido assim.

Eu olhei os cantos
e medi com o palmo as paredes.
Eles eram tantos
e agora só me resta a sede

de preencher o vazio
com a insensatez de um algo novo,
sentir o ardor e o frio,
entregar-se a mais um outro jogo.

Com anseio espero
mais uma vez o armário se encher
para que novamente
seu conteúdo eu possa perder.

Nada carece de sentido
na impermanência.

Tabula Rasa


Com o decair natural das coisas
tudo se torna eqüidistante,
indiferente.

Suspenso na vastidão do nada,
projeto sonhos em
fumaça e espelhos.

Cessa retumbar do mundo
e sento-me a minha frente.
Não existe platéia que aplauda
ou um júri que me isente.

Apaguei meus traços
para indistinto ser mais eu.

Testemunho minha existência
nos limites da quietude.
Olho de fora com os olhos da introspecção.
Encontro ao centro minha fortitude.

Uma Vez Mais


Despido de meus tijolos e palavras duras,
entrego minhas velas ao mar bravio.
Eu me encolho sobre seu colo sereno.
Hoje não é preciso ser forte.

Entrego-lhe tremendo as chaves da clausura,
Da dor hoje me exproprio.
Perco-me em seus gestos pequenos
e aponto com o dedo um norte.

Carícias cálidas entre os sonhos divididos.
Os dedos se entrecruzam uma vez mais.
Estes sãos os dias em que tudo é permitido.
O que aqui se fez o mundo não desfaz.

Pedestais e Cadafalsos


Os pedaços e os gritos reunidos
formam um mosaico cintilante
de feitos e limites excedidos.

As fotos e radiografias
pinçam a variável somente no instante
em que nenhum valor valia.

Os contos por incautos recontados
sempre adquirem indevidas significações.
Minha sombra projeta-se longa e escura,
mas me flagelo sempre com as incorretas proporções.
Mesmo que minha palavra troveje alto,
quando falo, são somente insinuações.

Posso desfazer-me de meu mito
sem que em um novo molde seja constrito?

Faltam-me unhas para remover os rótulos
pela conveniência e os costumes postos.

A Queda


Como é doce meu cair.
Precipito-me de um mundo de ilusões.

Se meu lábios negam o sorrir,
o peito entrega-se a nudez de novas emoções.

O pulso acelera,
os olhos absorvem o mundo.
Tudo se intensifica.
Tudo é apenas pano de fundo.

A gravidade é o vento
que sopras as minhas velas.
Perpasso as nuvens
ao tentar repousar nelas.

Minha queda se estende.
Coleciono ricos instantes.
E não mais que de repente,
nada é mais como antes.

Pressinto o chão acariciando minhas costas.
Peço apenas mais um momento,
mais um atroz sentimento.
Presa na fugacidade do que hoje importa.

Deixei as oportunidades todas
fecharem as suas portas.

O grande vão da vida


Observo atento
as expressões e os gestos
de quem não está mais lá.

Em um jogo de alento
que se esvai por entre restos
de quem eu iria me tornar.

Refuto teorias
com toda a idiossincrasia
dos que resistem a se entregar.

Vejo agora com a clareza
de quem um dia se calou.
Pairei além de incertezas,
fui refeito do pouco que restou.

Eles ergueram paredes
para então as derrubar.
Jogaram suas redes
para somente eu as rasgar.

Lançada a semente
no grande vão da vida,
entrego o meu soldo
e fecho a ferida.

Fui um número em uma fila,
mas hoje sou um homem em um mar.

Agridoce



Com os joelhos abraçados
torno suportável
você não estar aqui.

Tento imaginar a forma,
para uma voz que assombra
e que me inconforma.

Como pôde a invenção
seu inventor descontruir?

Enfeito as paredes com as fotos
de nossos momentos fabricados
e adormeço quieta no conforto frio
dos seus longos braços imaginados.

Seu leve toque inexistente
é a carícia mais pungente
que persiste em me atormentar.

Eu estou bem, obrigada.
Isto tudo irá passar.

Mas em algum lugar eu sei
que alguém espera
por um outro alguém
a lhe esperar.

Nunca lhe pedi nada
e você também nada trouxe,
mas mesmo com a distância
encontro um equilíbrio
agridoce.

Sopre suas palavras
como as sementes
de dentes-de-leão
ao vento.

A Espera Polida


O atraso cotidiano dos coletivos matinais.
As filas dos banco e seus inoperantes terminais.
O extravio de suas cartas e outras correspondências banais.
Esperamos apropriadamente atrás de linhas bem traçadas,
guiados por milhares de outros pequenos sinais.

Nunca nos ocorreu dizer chega
e perceber que não existe um futuro que prometa
realizar estes sonhos
que se esvaem das pontas de nossas canetas.

Os olhares se viram
para os grandes painéis luminosos
esperando o chegar
de um número
que seja só nosso.

Este profundo estranhamento perante o mundo!
A mente vagueia e logo muda de assunto.

Café Pequeno(Para Catharina)


Todas as manhãs você acorda mais só.
Levanta e faz seu café pequeno,
com os pés descalços
e com as medidas certas
ensinadas por vó.
O pão é dormido
e seu mastigar mais lento.

O horizonte restrito dos seus sonhos possíveis
não tem mais um espaço para mim.
Mais um nome entre outros substituíveis.
Nunca quis olhar de perto o fim.

Meus olhos te seguem pela multidão,
atrasada para chegar a lugar algum.
Uma Alice a procura de um coelho,
encontrou somente um lugar comum.

Aluga-se


Rodam os carros por entre ruas pequenas sem nome
de onde descolam das paredes os cartazes
há muito pregados por pesadelos insones.

As janelas se fecham e todos olham pra dentro
com a certeza secreta de estarem no fundo sozinhos.
As luzes tremem e se apagam, resplandece na frieza o cimento.

Vide a ámalgama atroz de cadeados seguros.
Levanta o colarinho para te proteger do frio,
esconde o teu rosto e aperta o teu passo.
Seu medo te espreita no escuro.

Gritos e estilhaços,
silêncio e nada mais.
Mais um apartamento vago
e uma pequena nota nos jornais.

Canção Vermelha(Eritema)


Sopra a pena da asa morta
que tudo encena
e não se importa.

Rindo apenas você suporta
o quão pequena
é a sua horta.

O rubro riso se entorta,
envenena,
mas não a prostra.

Fardo leve que não se mostra,
um eritema
sobre nuas costas.

Portas Abertas


Os limites se confundem,
uma mera ilusão de linhas bem traçadas.
Neste relutante estar aberto,
as portas de alguma forma foram arrancadas.

Exala das paredes o cheiro de tinta.
Os objetos foram todos bem encaixotados.
Apago meus rastros, desenterro raízes.
O lar se torna apenas um outro imóvel alugado.

Lembro-me de sentar com as costas na parede
de uma sala vazia em uma imensidão branca.
Arquitetava o lugar devido de cada coisa.
Hoje tento apenas recordar
qual a porta que cada chave tranca.

Tinta e Significação


Como fruta que se faz mais doce
antes de apodrecer,
você eleva suas expectativas.

O corpo fala mais alto e
os sentidos todos se excitam.
Universo de possibilidades convidativas.

Você vê horizontes plenos de significação
em um glorioso teste de Rorschach,

mas estas são apenas palavras tolas
de apenas um outro escritor de araque.

Incurvatus in Se (Narcisismo)

Premia os braços abertos
com a sua ausência
e faz destes passos incertos
um alvo fácil
para sua crueldade
e eloqüência.

Você diz que as águas plácidas
da solidão lhe bastam
quando um a um
os que vieram
vagarosamente se afastam.

Pois somente seus
são os afetos que traga.
Ao prescindir dos outros,
é a mão do esquecimento
que carinhosamente lhe afaga.

Nos muitos rostos, um só rosto.
Nos muitos nomes, um só nome
ecoando alto nos labirintos do desejo.

Veja o mundo desaguar em ti.

Nas Beiradas do Mundo


Sonhei estar nas bordas do mundo,
restaurando o balanço das forças
como criança se equilibrando
em suas brincadeiras.

Ondas mais altas que prédios
e precipícios mais fundos que ruas
no lugar onde as pontas
se amarram na hora derradeira.

Ouvi ressoarem trombetas
e os hinos de guerra
enquanto exércitos marchavam
sobre minha solidão.

Avenidas de asfalto
e ruas de terra
se entrecruzavam
em uma estranha comunhão.

Os infantes e suas espadas de plástico
brincavam irrequietos
perante os primeiros indícios
de escuridão.

O Fim Dissoluto de Tudo



Sem nada dizer, pois tudo havia sido dito,
as coisas se assentaram em seus lugares
e os pertences foram todos repartidos.

Algo no caminho deve ter se perdido.
Um aperto de mãos e uma última troca de olhares
para descobrir na distância o que nos havia acontecido.

No silêncio incômodo das refeições,
disputávamos sempre quem
terminaria primeiro.

O riso virou silêncio
e a paixão virou censura
em nosso jogo de enumerar os erros.

A estória se desnuda
em nuances que não queremos ver.
Nossas flechas estão rombudas.
Minhas feridas cicatrizam sem você.

Pensei ter te visto dobrar a esquina
em uma de minhas caminhadas.
Sem que tenha percebido, encontrei-me
caminhando em uma outra calçada.

Meia Luz


Meias verdades sussurradas à meia luz.
Mentiras pavimentam o caminho
enquanto somente o desejo nos conduz.

Seu lençol pôs meu mundo à prova
e sorrindo vi as paredes se racharem.
Sua cama, como uma desova,
testemunha os corpos se acumularem.

Calçar os sapatos e olhar pra trás
é algo que jamais faria.
Desde cedo fui ensinado
a jamais confundir
sexo com poesia.

Boaventura


São largos os caminhos,
mas tão vagarosos os passos.
Rostos vem e vão,
mas diferentes de cometas,
eles não deixam rastros.

Olho a minha volta e sorrio,
pois o tempo cegou o fio das dores.
Na vastidão humilde do não saber o mundo,
existe espaço para melhores amores.

Comprimento a vida com olhares
e uma leve mesura de cabeça.
Ela me fala de seus planos
e o quanto quer que eu envelheça.

Apenas rio, calado e pensativo,
por saber que cada coisa tem seu tempo,
como as folhas caídas sobre o passeio
sendo aos poucos varridas pelo vento.

O Velho e o Novo



Por que mudar de assunto e
falar de uma outra estação?
Abra as suas cortinas
e aprenda a ouvir este não.

Tudo segue seu curso,
um caminho estóico
de afluentes e confluências.
Cansei da dança ornada
de nossas eternas indiferenças.

Foi então que te vi
segura em seus passos
e com um sorriso parcimonioso.

Esperava quieta
perto das extremidades do fim.
Os anos se passaram
e receio ter conhecido
somente a mim.

E eu te quis de novo
por não te querer mais.

A Antecipação e o Indizível



Ouça a angústia no silêncio
que antecede o quebrar de vidros.
O sangue corre com a excitação
do conhecer novos caminhos proibidos.

Transgrida as regras
como quem colore fora da linha.
Refaça estes passos tortos
pra não morrer uma vida cretininha.

Queira que seus punhos sangrem
ao tentar derrubar colossos.
Jogue fora o pão comprado
por seu salário insosso.

Fuja do horizonte retilíneo
que o sangue e a formação lhe imputa.
Seja preso retocando a Mona Lisa
com maquiagem barata de putas.

Conquistar a vida é algo
que se faz somente com os dentes.
Eis a morbidez que nos faz parar
e contemplar os acidentes.

Além da Insensatez


As ruas se enchem com
as mágoas do que ficou para trás.
O sentir-se alienado mesmo quando
lhe abandonaram as dores inoportunas.
O mundo cresce e projeta sombras grandiosas
sobre a estrada a frente.
Não existem mais problemas
em ser frágil ou ser pequeno.

Um dia você acorda e olha pros lados.
Descobre que muitas de suas convicções caíram por terra.
Não existe mais conforto na ignorância das certezas.
O fogo que lhe comia as entranhas
não é mais a única coisa que te aquece a noite.

Nada é mais tão complicado
e nada é mais tão simples.
Aprendemos a intuir os contornos da vida
além do tremeluzir de nossa insensatez.
Os punhos cerrados se abrem.
Os corações se abrandam.
Tudo é maior e mais profundo
no ocaso de nossas beligerâncias.

Circunscrito


Conheço a fibra da qual fui feito
pois testei-a em tempestades.
Eu não sou ou fui um eleito,
mas sobrevivi as minhas próprias vaidades.

Cansei de me atirar as pedras
e recontar os pedaços.
Eu não sou os meus erros.
Eu não sou os meus fracassos.

Demarcado os limites,
alguma voz ousa sussurrar:
"Deste ponto jamais passarás".

Corro então até que as cordas se estendam ou se partam
como um marionete de meu próprio sucumbir.
Os membros deslocados sempre se endireitam
e eventualmente saram.
mas não posso mais ficar aqui.

Circunscrito por palavras duras,
não embelezo mais meu sofrimento.
Eu estou além do azul profundo.
Eu não sou meu recolhimento.

What Would Befall


We are running through the ragged edges,
stomping in the half-lit corners of misunderstanding.
Open wounds were quietly disregarded
as we witnessed the pulling of the thread of our unmending.

You cannot bring yourself to care
because everything rises faster now.
We still managed to look a little scared
despite the sickening certain of what would befall.

Open hearts cannot be dissuaded
whilst the pieces rest in their final stance.
We somehow knew we were too jaded
by the hopelessness of too many second chances.

As Mais Nobres Intenções


Vivemos de certezas itinerantes,
contando as baldeações do saber.
A estrada nos faz ignorantes
na ritmada canção de nascer, foder, morrer.

São tantos os passos no chão,
e outros tantos ficaram para trás.
Queria rumar na contramão
e nascer sereno onde tudo se desfaz.

Esmagado pela certeza do intuir
que não existe nada mais que isso.
Um universo sem testemunhas
ou outras dimensões.

Somos apenas gloriosos pontos
contemplando o infinito.
Demos ao vazio a alcunha
d'As Nossas Mais Nobres Intenções.

Oracular


Voz que ecoa além dos sensos,
reverbera nos recantos escuros da alma.
Uma forma se esconde atrás de nuvens de incenso
e em línguas mortas agora me fala.

A apreensão pinça da loucura
os seus queridos filetes de razão,
mas são sempre nas falas obscuras
que caminham juntas a miséria e a exaltação.

Como são tortas as línguas dos deuses!
Deposito sobre o altar as minhas dracmas.
Parto protegido pela certeza de risos
e toda a inevitabilidade das lágrimas.

Demiurgo


Faces sem nomes.
Nomes sem faces.
Multidões alheias em seus jogos de mentir
sobres os dias que um dia virão.
Prestam testemunhos falsos sobre o que é o existir
e em conjunto orquestram esta grande ilusão.

Alarga os traços fortes de seu Criar.
Retoca o Real com os pincéis do seu Querer.
Não existe a hora e o lugar.
Descubra que o que se perde em mim é você.

Eu sonhei seus passos
e andei por estas ruas.
Eu refiz estes traços.
Eu ergui a Lua.

Retorno a prancheta e melhoro o projeto.
Realço a sutileza que os separam dos animais.
Estando entregues aos regimentos do Universo,
Eu admito ter esperado mais.

O Duelo(Bushido)



No encontro cego das forças,
dançandos nos limites do universo.

Um caminho.
Um ponto.
Um único e verdadeiro foco.

Intenções se ajustam
revelando o desfecho antes do início.

O olhar se volta
para o centro estático do mundo.

Perpasse o intransponível com um sopro
e encontre-se no outro lado,
acima das alturas levianas.

somente um está de pé
sob o florescer das ameixeiras.

Dioramas de Almas (Indiscrição)

Para não se derrubar as paredes, as portas.
Para não reconstruí-las vez após vez, as chaves.
É reservada somente às janelas
o inglório papel da indiscrição.

Pessoas sentadas em suas camas
atentas apenas ao microcosmo de suas dores.
Podem estar alheias ao mundo,
mas nunca do mundo alheias.

Reconstruir por sinais e signos
a plenitude da persona em sua imensidão.
Pequenos dioramas de almas
talhados pelo olhar casual da observação
(ou então talvez pela lente distorcida
de doentia obsessão).

Preenchemos os espaços vazios
com o que queremos ver,
deixando suspenso no fundo
o tão pouco que verdadeiramente podemos ter.

Construímos mitos usando pequenas intimidades roubadas,
evocando baixo por pessoas
por meio de suas imagens borradas.

Estas janelas são apenas espelhos
nos quais nos vemos nos outros.
Supreendemo-nos então com a familiaridade
em que este universo parece estar envolto
(eis aqui o verdadeiro umbiguismo míope dos tolos).

Não importa a casa ou comôdo onde estiver.
Não se preocupe em fechar suas janelas.
Ninguém no fundo pode saber
como o outro é.

Pulsação


Transbordo-me no mundo
como uma parte difusa no todo.
Espalho-me além dos sentidos
até encontrar-me no centro
contemplando-me nos cantos.

Dimensões que iludem.
Falso senso de limite.
Um universo que flui,
mesmo além do toque.

Somos todos gentilmente levados
pelo braços destes elos invisíveis.
Nunca achei que fosse possível
até eu fechar os olhos
e ver por mim mesmo
como todo fim
aflui em novos começos.

Não Estando Lá

De relance olho pro vazio a se revelar.
Por pouco perco o momento em que as pontas se juntariam.
Resvalo no sentimento incomôdo
de se estar no lugar certo,
mas de alguma forma na hora errada.

Eu tateio pelos cantos
para mapear aquilo que me escapa,
mas não existem linhas bem traçadas
nesta cartografia da penúria e da falta,
só os espaços onde o indefinido
de alguma forma deveria repousar.

Entrego-me ao um leve espanto
de saber querer um algo mais
que me escapa a mente,
mas que de alguma forma se faz presente
quando viro-me para trás
olho para o nada
e sorrio
discretamente.

Inescrutável


Olho à volta com os olhos cansados
de quem acha saber mais do que na verdade sabe.

Intransponível e introspecto.
Perco-me para reencontrar o meu espanto.
Reenceno os movimentos silenciosos da mente
em batalhas internas por querer saber o sentido nas coisas.

De braços abertos
e pressionando o peito contra a alvura fria das paredes.
Sinto apenas um coração batendo.

Eu e minha pequenez inconsolável
abrigamo-nos no seio desta imensidão inescrutável.

Universo em revolução, mas desprovido de sentido.

Sopor Basal


Noite quente e lençóis desarrumados.
Paredes que se espremem na afetação insone
de desejar manhãs.

A leitura vence o cansaço
embaralho letras para no reescrever dos nomes
dissimular minha afã.

A mente luta enquanto o corpo pede sossego,
até que eu possa apreender a sutileza inútil do conceito.
E por fim, quedar no sono,
meu sopor basal sem sonhos.

Oh madrugadas mal dormidas!
Sempre ao descanso preteridas
mas nunca inteiramente compreendidas.

Bouganville


Encolhida em seus braços
Escolhida sua roupa
Quis achar sua voz
Mas ficastes rouca.

Sua comida sem gosto
Suas saídas sem pressa
Temes ficar a sós
E descobrir-se louca.

Comedida em seus gestos
Descabida de dores
Mostrar-se-ia feroz
Mas sua presença é pouca.

Pequeneza


Vejo nos olhos dos apagados
o desfazer de toda calma
quando por força da circunstância
suas sombras se alongam
pela luminosidade cínica dos holofotes.

As mãos se buscam em apoio mútuo
contrapondo-se ao equilíbrio débil dos joelhos.
As palavras tropeçam em fuga
em busca do conforto disforme da escuridão.

Os segundos se extendem a distâncias impensáveis
por entre estradas cingidas por olhares de faca.

As peles se rasgam.
Suas entranhas se expoem.
Só lhes restam coletar suas migalhas
para o divertimento da platéia.

Vozes baixas jamais serão ouvidas.

Chutando Latas


Ele toma abrigo no esperar por dias melhores
como um transeunte em um ponto de ônibus da vida.

Seus horizontes se expandiram e agora se recolhem
na interioridade amarga de se ver sozinho.

Ergue a mão em direção à coisas ilimitadas,
mas as encontra além das grades do possível.

Ele anseia espiar mistérios
para saber o que lhe espera do outro lado

Seus ossos foram consertados tortos,
assim como o seu sorriso.

Encontra-se gritando com as paredes
sobre o grande por quê de tudo isso.

Pedras estilhaçam as vidraças foscas de seu discernimento
e tudo que vê é noite e estrelas bordadas em céu sem cores.

Um universo em recolhimento
de tanto caminhar com as mãos no bolso
e chutar latas.

Olhos de Mar



Sempre suspeito dos mesmos defeitos.
Eu não queria me mostrar.

Levo no peito meus planos perfeitos
que não iriam se realizar.

E do alto espreito
vestígios do que se foi.

Quando estive em seu leito
o meu Sol também se pôs.

É algo mais forte do que nós,
ser tragado
por um passado
enterrado
e atroz.

Orando com o Trovão


A terra treme.
O céu se fecha.
Contra as paredes dos penhascos
as ondas martelam com o furor de deuses.

Antes que se pense
que o mundo terminou em trevas,
este céu se risca com brilhantes traços
que purgam a noite de nossas insensatezes.

Como resposta a um clamor oculto
pulsa no céu por um único segundo
as artérias do infinito.

E a luz dá lugar ao vulto
borrando os limites de um mundo
imerso na escuridão e no mito.

Pulou uma batida
o meu coração
ao sentir reverberar no horizonte
o estrondo alto e retumbante
de um trovão.

Empatia



Tento atravessar a ponte invisível
do mútuo entendimento.
Desequilibro-me ao procurar palavras
enquanto calço as pegadas de outros.

Desoriento-me com este olhar pra dentro
e busco além das palavras fáceis
as bases de um breve,
mas verdadeiro,
co-sentimento.

Afasto então as plumas da vaidade.
Dispo-me de um manto de mentiras.
Cristais vibrando em uma mesma frequência
compartilhando estórias de como se fizeram em pedaços.

As nossas guardas estão baixas.
Eis o ocaso de nossas diferenças.

Oh este andar em círculos
e este desviar de olhos!
Somos todos presas fáceis
para a compreensão alheia.

Espelho D'Água


A pedra rompe a superfície plácida.
Anéis concêntricos começam a se formar.
Eis que as pétalas da acácia
então começam a se afastar.

Vejo além do turbilhão do centro
a pesada pedra no fundo repousar.
Desmesura quieta em seu retraimento
sob águas que relutam em se acalmar.

Aos poucos tudo se afasta
deixando somente o caos em seu lugar.
Flutuar é uma alegria ingrata
que nos afunda ou nos faz errar.

As águas acariciam os pés do atirador
observando tão incauto e inocente
a calmaria do espelho d'água se recompor.
Mas nada é mais como antes.
Aqui não existe mais aquela flor.

Ponho-me a desfiar velhas mágoas
e relembrar do que Λάχεσις(Lakhesis) prometeu
Não vejo mais o seu rosto nestas águas
e tampouco quero ver o meu.

Que arremesem então mais pedras.
Que se turvem as águas como o breu.

Joelhos que Sangram


Teus pés sobre nuvens suspensos
deixam-me mais e mais propenso
a esquecer de todo bom senso,
a abrir pesadas portas
e dizer tudo aquilo que penso
(ou somente o que acredito pensar).

Eu sei que asas irão quebrar tua queda,
mas eu só tenho os meus joelhos.
Existe uma luz que agora te eleva,
mas para mim só resta a força.
Deixo no mundo meu rastro vermelho.

Por não saber se você sorri em sua suspensão,
eu me pergunto o que se esconde
por detrás das dobras da eternidade.

Apesar de tudo, prefiro estar aqui,
debaixo e distante dos seus pés.
Será que ainda contemplas a nossa infelicidade?

Mira atentamente as estrelas,
pois agora você as pode tê-las.
Dissipa-te no brilho frio,
ilumine nossas estradas,
nossas peles rasgadas
e todas as nossas pegadas vermelhas.

Rajadas e Revoluções


Retroceder
já não é mais escolha.
Reescrever
agora uma nova folha.
Tudos aos poucos se refaz.
Nada nunca é demais.

Erga sua taça
e saude os caídos.
Nada é de graça,
logo tudo é permitido.

Sangue e suor,
é tudo o que restou.
Ninguém lhe ensinará,
tudo apenas começou.

Uma Claridade que se expande
até horizontes relevantes.
Hoje fará sol.
Nada é mais como foi antes.

Inesperado

Todas as suas roupas são as mesmas.
Os seus cd's estão fora de catálogo
Suas expectativas jamais serão imensas.
Você silenciou a ponte do diálogo.

A sua fibra agora se entorpece
e tudo o que toca é maculado.
Reescreve o passado como se pudesse.
Os olhos de um leão enjaulado.

Os que lhe cercam se enfastiam com a dança de achar palavras certas.
Pois nenhum crime jamais fora cometido, você simplesmente não estava lá.
Que o mundo saiba, que apesar de tudo, sua vida sempre foi a mais reta.
Somos apenas danos colaterais que pavilharam o caminho para sua infelicidade
... E eis então que achou o seu lugar.

A cada dia que se perde,
vejo mais de você em mim.
Minha existência me entristece.
Antes mesmo do início,
você havia sugerido meu fim.

Uma pequena complicação inesperada
em meio aos seus jogos de poderia ser.
A grandeza nunca alcançada
e que ninguém mais quer saber.

Eu ainda estou aqui,
seu filho da puta.

Incompleta


Como carcaça suspensa em uma linha de montagem.
Como partes soltas que se acumulam nos cantos.
Como as peças que faltam em um quebra cabeça.
Como esquecer a palavra que termina o encanto.

Ergue sua cabeça sobre uma multidão de rostos,
mas jamais encontra aquilo que espera.
Está presa em um sonho de veludo
em meio as mentiras mais sinceras.

Sentado sobre o capô de um carro
contemplo a vastidão dos espaços vazios.
Meu mundo se preenche de sentido.
Queria que sentisse este mesmo arrepio.

Mas sei que suas paredes são mais altas
ao redor de seu sorriso inescrutável.
O mundo te vê como estrela,
fria, distante e inalcançável.

Ouço as batidas graves e repetidas.
Eis a grande marcha e sua inexorabilidade.
De nada adiantaria reabrir estas feridas.
Linhas não perpassam nossa sinuosidade.

Almejar o Sol




O rabiscar do Sol nas folhas do céu,
os traços fortes do artista
tão indeléveis em minhas vistas.

O intangível consolo de não ver limites,
como jogar amarelinha entre as linhas
do improvável e o impossível.

E então me calo pra ouvir a música das esferas.
Na ponta dos pés e com o ouvido afiado,
ouço apenas Saturno cantar desafinado.

Navegar por um labirinto de causas escondidas
e perder-me nas mais profundas águas navegáveis.
É preciso sentir-se como parte de algo maior
para que minhas segundas sejam suportáveis.

Debaixo de um Tapete




Hoje eu vi o seu reflexo,
o lado mais fosco da moeda.
Eis a peça cuja ausência
desconstrói o entendimento.

Mesmo não estando lá, você se fez presente
como uma nota de rodapé em laudos
ou a pincelada débil da qual brota
as matizes do contexto.

Meu interesse que arrefece é despropositado.
Enxergo apenas sombras do que enxerguei
a mais de 10 anos atrás.

Um quadro sem molduras que sustente
suas formas indistintas
sob a cáustica lucidez do aguarrás.

Você é mais cinza do que se permite ser.
Seus traços familiares estão borrados.
Enquanto esconde cacos debaixo do tapete.
Pés sangram e jamais serão curados.

Alvorada


Sou pleno na certeza do instante
como Sol que brilha nos limites da visão.
Tudo move a minha volta.
Tudo sugere seu sentido.

Pareço adormecer acordado
ao vislumbrar meus rastros
se dissipando na gentileza de um algo maior.

Então vejo ecoar meus gestos
por entre ligações sutis despercebidas.
Eu estou aqui,
mais presente do que jamais estive.

O passado diminui suas proporções.
Entrego-me de braços abertos
ao doce beijo da alvorada.

Entro em um frágil mundo de sonhos possíveis.

Memento Mori


Em sua paciente espera pelo abraço derradeiro
você se volta para o seu mundo
de cores desbotadas e palavras que lhe escapam.

Tão irremediavelmente perdida
em meios a seus traços que se aprofundam
e se mostram mais traiçoeiros que mares.

Sigo seus olhos para tentar entender
que profundidades inescrutáveis contempla
quando olha por cima de seus ombros
e em silêncio nos pergunta se é chegado a hora.

Como é triste ver minha raiz, descendência e história
virar mobília viva de palavras poucas.

No Limiar da Dor


Ultrapassado o ponto de ruptura,
cessam os sorrisos largos
dos coniventes
e dos coibidos.

Todos parecem possuir segredos agora.

Desprovido de horizontes e referências,
tudo se iguala na dimensão de sua aspereza.
Não existe virtude em ser acolhido
de braços abertos pela sua própria solidão.

Encontro-me longe do conforto insone
de se contentar por menos
na espera de dias melhores.

Resoluto, enfrento as muralhas
construídas com as coisas que deveria aceitar,
mas não encontro beleza em me esvair
em meio aos fincos,
apenas o silêncio do qual brota o arrependimento.

Sinal sobre Ruído



Imagens com fantasmas.
Portadoras entrecortadas.
Ouço as distorções de uma voz
em discurso irreconhecível.

Um espectro de acidentes e casualidades
sobre o qual derramo um sentido.
Palavras brotam inspientes e insípidas da
eletrostática circundante.

Na amplitude que rasga as aparências,
singra somente a estática por meus ouvidos.
Nesta ânsia de ouvir um eco
de um alguém que se esconde
por trás destes sinais e modulações.

Mais uma vez os dedos giram o dial
em busca de uma frequência ressonante,
pois por mais que falem,
eu não ouço nada.

Afinal



Parado em meio à totalidade do mundo,
como veios de pedras que singram os montes,
congelo em um momento sepulcral.

Nesta quietude que silencia mistérios,
é possível tornar-se menos humano
e um algo mais atemporal.

Entre um mundo que respira sob estes pés
e um céu que restringe estes sonhos.

Passo as mãos pela grama alta
e encontro na escassez dos espaços abertos
toda a compreensão que me falta.

Era apenas uma arquitetura
de belas irrelevâncias,
quando se olha para o ínicio,
chegando no final.

Sonhos Possíveis



Sua voz ecoa na minha,
mas o silêncio é só meu.

Perder o que não se tinha
e então somente
reencontrar o que não se perdeu.

Por que ater-se ao conforto informe do anonimato,
e projetar sua vida em algo tão inerte e abstrato?

Rasga a poesia escrita,
Esqueça a palavra dita,
para que nas páginas que se aproximam
dos momentos intransponíveis,
ensaiemos os últimos passos
que nos levem somente
aos mais belos sonhos possíveis.

Sobre Joelhos e Precipícios


Cheguei ao fim
e tropecei nas pontas soltas.

Caí ...
e ao levantar-me
deparei com um novo ínicio.

Pensei que seria mais difícil,
mas prefiro os joelhos esfolados
do que a certeza desconcertante
dos precipícios.

Vidrado


Em cada poste
e em cada esquina,
espreito incerto minha sina.

Em meio à noite e ao neon,
em recantos em que a inocência termina.

Palavras já não dizem nada.
Só o suor, a batida e a saliva.

Em um jogo de toques e sorrisos,
em querer sempre um algo a mais que isso.

A Fascinação estampada em nossos olhos vidrados.
O sangue escorre pelos pés
enquanto dançamos sobre este chão
repleto de vidros quebrados.

Pequenas Tristezas(O Empata Foda Metafísico)

Como as mais belas músicas
cantadas sobre o acordes errados
ou os templos mais sacros
erigidos com concreto sem liga.

Os passos mais tímidos
circundam o inevitável.

Os olhos estavam abertos em antecipação
esperando um cometa que não viria.
Sob um céu magnânimo e indiferente
repousam nossas pequenas tristezas.

Ouço anjos em cacofonia
em meio ao gozo que certamente
não duraria.

Subjugando Afrodite



Carícias retribuídas,
o amor em um estalar de dedos.
Suor suave,
verniz sobre os contornos
que não se distinguem mais.

Não existe mais espaço para seus medos.
Impera agora minha conveniência
sobre os seus maiores temores e anseios.

Foi tão doce tirar-lhe a escolha,
garrotear sua voz,
sem jamais lhe negar
um lugar que a acolha
na dimensão diminuta
daquilo que chamamos de nós.

Reduzida somente ao corpo e ao cortejo.
Minha própria pequeneza, como cordas,
elevando-a reluzente
sobre um altar alvo
feito somente
de linho e desejo.

Contorno e Contraste




Se a vida fosse um filme,
não poderíamos todos ser protagonistas.
As ruas clamam por passos sem rostos
para lhes emprestarem vida.

Mas quanto cinza é preciso
para descobrir o valor das cores?

Queria ser as rachaduras nas paredes,
os arame farpados e os fios de alta tensão.
Seria de bom grado a monotonia das segundas,
o silêncio dos elevadores
e toda falta de imaginação ...

Para definir-lhe os contornos,
realçar-lhe o apelo
e dar-lhe uma nova significação.

Eu sou a escuridão da noite
que molda a sua luminosidade pontual.
Ergo-lhe para além das dores,
para que encontre neste vazio celeste
apenas um amor incondicional.

Devaneios Desejosos




Você não sente seus pelos se eriçarem
quando, no descuido do acaso,
sua mente vagueia por entre
esses lugares congelados da memória?

Tudo tão delicadamente suspenso
e desligado de tudo mais que se passa.
Um sentimento que ecoa
como luzes mornas recaindo sobre
o pequeno universo recôndito
de seus devaneios desejosos.

Na multiplicidade do possível,
rostos sobrepostos nos preenchem
com as esperanças mais secretas
... mas aos poucos
o real pelas rachas se infiltra.

É como estender a mão a um quadro que se despinta
ou elevar a voz ao quebra-cabeças que na queda se desfaz.

É como andar sozinho e em silêncio
sobre o confete dos grandes salões
sabendo com a plenitude de seu ser
que aqui
deveria
simplesmente
haver
mais
...

Compreendido


Caí em um oceano rude
e engolfado fui por seu semblante.
Protejo-me na escuridão de seu perdão
para que nele eu não veja
a imensidão de meus pecados.

Tateio entre as aberturas deste amor
em busca de um meio
para desfazer-me desta armas
e finalmente deixar
as feridas se fecharem.

Afundo vulnerável e rápido
em um oceano de aceitação.
Sua voz me guia e cura.
Cessa toda a procura.
Eu não luto mais.

Panta rhei


Este é o meu princípio,
meus passos em falso
e minhas primeiras tentativas.

Tudo então se intensifica, se transforma e transita.
Paredes se erguem, represas se rompem,
estranhos me seguem e sonhos se corrompem.

Ausculto meu pulso breve e logo a tudo permeio.
Abdico das dores e destes falsos amores.
Apago contornos para emergir indistinto,
desaguando renovado no recomeço que anseio.

Este é o meu princípio
meus passos em falso
e minhas segundas tentativas.

Sinedóque



Ponho a gota sob o microscópio
e penso conhecer o rio.
O Mundo se esconde além de números.
Se faz presente, mas incogniscível.

Semblantes que se assemelham
a novas partes velhas sendo recatalogadas.
Recombinam-se e desfazem-se,
sem jamais terem dito nada.

Alma.
Substância estranha
que no espaço se esconde,
mas no tempo se revela.
Como o vazio que cerca as grandes construções
ou como indiviso vento que lhe impulsiona as velas.

Durmo com as costas em montes
e desperto dandos às nuvens
suas significações.

Deconstruo os sinais.
Tomo a parte pelo todo.
O vazio se preenche com o que se quer.

Sinedóque


Ponho a gota sob o microscópio
e penso conhecer o rio.
O Mundo se esconde além de números.
Se faz presente, mas incogniscível.

Semblantes que se assemelham
a novas partes velhas sendo recatalogadas.
Recombinam-se e desfazem-se,
sem jamais terem dito nada.

Alma.
Substância estranha
que no espaço se esconde,
mas no tempo se revela.
Como o vazio que cerca as grandes construções
ou como indiviso vento que lhe impulsiona as velas.

Durmo com as costas em montes
e desperto dandos às nuvens
suas significações.

Deconstruo os sinais.
Tomo a parte pelo todo.
O vazio se preenche com o que se quer.

Sinedóque


Ponho a gota sob o microscópio
e penso conhecer o rio.
O Mundo se esconde além de números.
Se faz presente, mas incogniscível.

Semblantes que se assemelham
a novas partes velhas sendo recatalogadas.
Recombinam-se e desfazem-se,
sem jamais terem dito nada.

Alma.
Substância estranha
que no espaço se esconde,
mas no tempo se revela.
Como o vazio que cerca as grandes construções
ou como indiviso vento que lhe impulsiona as velas.

Durmo com as costas em montes
e desperto dandos às nuvens
suas significações.

Deconstruo os sinais.
Tomo a parte pelo todo.
O vazio se preenche com o que se quer.

Absolution Undelivered


Shattered bones and leaking marrow,
losing life like the plight of the unaimed arrow.
An ever fleeting sense of purpose
lies behind every door and window shut.

On every road I had dared to trod,
my black twin held up his loving hand.
My feet was sored, my confidence slivered,
yet there I stood with my absolution undelivered.

I knocked on every Temple's door,
but they would not let me in.
Though their rites I had seen before,
It was only then that I realized
That the Spirit lies not
within walls
anymore.

"Split a twig and I am there.
Lift up the stone,
and you will find Me there."

Automatismos


Minha alma está repleta deste vazio que transborda.
Mãos se fecham sobre os desejos inomináveis que me escapam.
Pálpebras se fecham e abrem. Vejo somente os carros e suas rodas.
Trafegam sem quem os conduza em suas intermináveis rotas.

Uma ilusão de vida.
Panos de fundo erguidos
com as pequenas cordas
que a tudo nos conectam.

O titiriteiro não está presente
mas o show precisa continuar.

Fomos dotados de somente
alguns desígnios datados
e o medo daquilo que se esconde
no interior da velha caixa de guardar -
bonecos velhos e naftalina.

Terra Dura



Por entre as pedras andarei
sem olhar nos olhos toscos
de quem as arremessa.

Meus passos hesitantes,
tão destituídos de peso,
vagueiam insones
em busca do conforto falso de promessas.

Mas não foi preciso puxar muitos fios
para ver mais uma trama se desfazer.

Nos negaram salva-guarda.

Recolheram o fio de Ariadne em um novelo
para o deleite e a crueldade dos felinos.

Caprichos, concessões e interesses econômicos.
Nada que transmute o estômago que se revira
em apenas mais um alívio cômico.

O horizonte se faz mais largo
e as noites mais escuras
quando o que paira pela frente
são somente incertezas e
estradas de terra dura.

Miopia Ontológica

Hoje eu abri as portas e não vi ninguém nas ruas.
O mundo, como criança, se escondeu de meus olhos inquietos.
Segui o ritual da vida sem ao menos saber por que,
apegando-me excessivamente aos pequenos detalhes,
à disposição dos móveis, às molduras dos quadros,
aos grandes e pequenos entraves.

Essas ruas vazias,
tão destituídas de vida e tão repletas de mim!
Passei por isso a somente percorrer vielas
temendo poder um dia me esbarrar comigo ...
Detesto engajar-me na conversa forçada
que ocorre no reencontro fortuito
de bons e velhos amigos.

Mas a precaução mostrou seus frutos,
pois hoje acordei não estando lá.
Eu me escondi nos olhos do mundo
deixando pendurado na geladeira
(ao lado da lista de compras)
um bilhete educado
dizendo somente
em um tom polido
"Poderia ser melhor,
mas até que foi bom"

Entre esse viver e ser vivido
(como marionete de incertas intenções),
está a minha própria miopia transfocal.
Cheguei a ir ao médico,
mas não fazem óculos pro meu grau.

Desmesuras e Pequenezas

No rachar do solo seco e
no estalar de juntas doídas
percebo finalmente
que minhas dores
não são maiores do que eu.
Desperto de um torpor auto-inflingido.

Minha cama estava pronta
e meus livros arranjados.
Pela primeira vez
reparo na mesa posta
e minhas roupas lavadas.
Minhas camisas são mais brancas
que os meus dentes.

Meu rosto não condiz com minha condição.
Tudo veio tão fácil
que precisei inventar o difícil
para justificar minhas pequenezas.
Estendo minha mãos sem calos para o Desconhecido.

Minha liberdade,
por mim tolhida
e do labor nascida,
perpetuamente
protegida por estas
feridas rasas
e sempre auto-inflingidas.

Encontro abrigo em meu manto negro de solidão,
como Atlas de plúmbeos pés e mundo nas costas,
possuo a mais plena certeza de ter sido eu
que escolhi essa bosta.

Abro a porta para ver o Horizonte
e retorno para dentro de casa,
pois na retilínea luz da alvorada
eu me encolhi
e escolhi
simplesmente
enxergar
o Nada.

Hagiografia

Não me incomoda tanto o que passou,
quanto o que poderia ser.
Eu lhe ponho mais alta
do que na verdade foi ou é,
pois reescrevi a sua hagiografia
como meu maior ato-de-fé.

Quando errava sem rumo,
acolhi-me sobre as estrelas frias de seu nome
pensando ver uma linha reta para além da dor
conduzindo-me até as portas de seu Templo,
mas as portas eram apenas paredes
de minha própria construção.
Encontrei apenas o silêncio
onde pensei haver absolvição.

Passo mais um dia olhando chover através das janelas.
O meu hálito no vidro escreve o seu nome
e mais do que ligeiramente some.
Nada se compara a perder você.

Entre Estações

Com o bilhete em mãos e sentado no oitavo vagão,
esperava que alguma cabeça olhasse para trás,
mas eu estava sozinho
nas páginas de outra estória que se desfaz.

Entre a tristeza de partir
e o enlace de braços do chegar,
preso pela certeza de trilhos
que levam-me para onde
pensei querer estar.

Nada é mais certo que o momento
e eu não sei mais aonde estou.
O chão me escapa rápido
em direção as paisagens indistintas
da última escolha que me restou.

Levanto-me do assento
e carrego fardos e lembranças pesadas.
Sacudo a poeira da viagem
e desço finalmente
em uma estação errada.

Wired Shut

Na reticência de minhas mandíbulas travadas,
registro apenas os lugares e as pessoas.
Estou presente, mas indistinto,
preso em minha pele de vidro.

O olhar que me perpassa,
gentilmente se refrata
e segue desimpedido,
com nada registrado
ou mal compreendido.

Tão monodimensional
quanto as sombras que se deitam
e tão intangível quanto
as luzes que as afugentam,

Adapto-me a realidade dura das superfícies.

Pandora

"Mais um outro tolo que se ilude,
toma o rio pelo açude
pensando guardar um mistério.

Se minha risada lhe parece rude,
é pois nunca soube como pude
ter um dia lhe levado a sério.

Abro a caixa de Pandora
para alargar o riso
e ver o que me acontece agora.
Não existe mais o dentro ou o fora,
apenas uma outra magnífica confusão.
O mesmo olhar que me reprova
é aquele que agora me pede permissão.

Quero sorver da vida somente o vinho
vendido nas estradas mais sinuosas do caminho.

... e não me peça para ir mais devagar
pois sequer quero saber
aonde quero um dia chegar."

Destrambelhado

Você nunca quis apagar seu cigarro e se sentar a nossa mesa.
Eu nunca ouvi você dizer obrigado ou alguma outra gentileza,
Ainda assim as portas se abrem para todas as suas sutilezas.
Vênus orbita em meio às suas pequenezas.

Quando cortarem suas fitas, quem irá do chão recolhê-las?
Os toscos e rotos, os podres e tortos, os lobos ou as suas ovelhas?
Esperam um sinal ou mais uma via pro mal, eis a escuridão que lhes esguelha.
Despeço das vestes e das feridas banais, a sua ausência me destrambelha.

Removo as grevas na escuridão entre postes.
Algo rasga a noite e o silêncio nas vozes.
Eu jão não caibo mais em mim.

Cosmogonia

Flutuo livre
Tendo cortado cordas com o passado.
Ninguém para me olhar e me dizer quem sou.
Ninguém mais pra olhar.

Como a palavra que reverbera
no silêncio que antecede a luz,
O caos reina no cerne,
Coração pulsante da grande explosão.

Quero fazer o todo em pedaços
para dos pedaços fazer estrelas.

Fantasmagorias

Escuridão serena a acariciar os meus anseios.
Em ti, tudo se perde sem que nada se transforme.
Teu fascínio transforma contornos disformes
em sugestões avassaladoras.

As sombras dançam sem saber por que.
Paredes se movem para enganar os pés.
Circunscrito no momento,
Não interpreto mais os meus papéis.

Queria sair do reino das certezas
e fazer morada nas terras do possível.

Cheshire

Como um mesa, calço minhas falhas com os livros.
Sozinho jogo o meu tolo xadrez de peças caídas.
Minhas mãos envoltas no café é como eu as prefiro
O seu riso é o que vejo sobre estas grandes avenidas.

O recolhimento é um quedar-se em si
e ninguém vai amparar minha queda.
Ninguém sabe o que eu senti.
O vidro grosso finalmente quebra.

O globo de neve molha o chão da sala.
Sobre minha camas,
os dedos você passa.

Toda cicatriz é aquilo que lhe corrobora.
Dói-me ver o Cheshire
finalmente ir embora.

Cheshire




Como um mesa, calço minhas falhas com livros.
Sozinho jogo o meu tolo xadrez de peças caídas.
Minhas mãos envoltas no café é como eu as prefiro,
mas é com teu riso sem rosto que eu ainda me firo.

O recolhimento é um quedar-se em si
e ninguém vai amparar minha queda.
Ninguém sabe o que eu senti.
O vidro grosso então se quebra.

O globo de neve molha o chão da sala.
Sobre minha cama ela passa os seus dedos.

Toda cicatriz é aquilo que lhe corrobora.
Um sorriso que se apaga ...
Dói-me ver Cheshire
finalmente ir embora.

Correndo em Ravinas

A água corre nas ravinas.
Leva tudo embora, mas me deixa o vazio
do qual brotam respostas.

Não quero raízes no caminho,
apenas a terra farelenta
sucumbindo sobre seu peso.

Carcomendo as encostas.
Desfazendo as estradas.
Fazendo o Todo e em pedaços
e encontrando o Nada.

Os nós dos dedos esfolados.
O osso e a cartilagem.
Saúdo minha solene estiagem,
o arauto incauto
de minha destruição.

Os Comedores de Batata

Acordo para um mundo de cores chapadas
e tomo-o logo como meu.
Os ajustes logo se recombinam e logo se sobrepõem,
privando-lhes de profundidade e de sua dimensão.
Atenho-me as cores que me bastam,
mas é o pincel que sempre escapa-me das mãos.

Queria aguarrás para afinar-me as tintas
e dar sutileza a toda metáfora e representação,
mas somos apenas primatas
pintados como o caçador e a caça
nas paredes das cavernas desta civilização.

Repudio os meus anos de ilusão e idílio.
Despojo-me de todo sentido e de toda significação.
Ao buscar uma razão latente para a vida,
pergunto-me se Vincent não teria encontrado a solução.

Nada no concreto se sustenta,
nem nada no concreta se subjaz.
Destinados a viver nossas vidas
a procura de algo que continuamente se desfaz.

Reclusão

Despejo o querosene sobre as últimas pontes
em minha ânsia de desvencilhar-me do mundo.
Sou o centro estático de meu círculo de fogo,
de minhas deploráveis chamas excludentes.

Quero ser pequeno
e quero ser atroz.
Ter muito mais espinhos do que pele.

Mas aprisionado pela convivência,
os meus modos e minhas maneiras,
eu sôo muito mais polido do que vivo
por entre estas palavras frouxas
que me induzem ao vômito.

O superego é minha coleira,
mas eu sei que ela um dia vai se arrebentar.
Eu nunca gostei de mim mesmo
e é por isso que estou aqui.
Continuo a me sabotar.

Cadentes

Vidas lúgubres cingidas pela violência
como em um cordão de dores laceado por estrelas.
Pérolas de fosco brilho
suspensas no espaço
preenchido pela dimensão
de nossa própria solidão.

É duro imaginar que possa haver um algo a mais que isto
e então ater-se somente
aos passos que estas botas poderiam ter um dia dado,
ou ainda ver sua humanidade reluzindo por entre as suas falhas
(como luzes que escapam por entre os barracos)
e saber ser, através das idas e dos anos,
o teu pior inimigo e carrasco.

Minha irmandade não é feita de sorrisos ou de rostos,
mas dos riscos que ferem a noite e se apagam.
Vejam mais uma pérola se despreender de seu colar.

Ouroboros

Dei muitas voltas pra chegar até aqui,
o mesmíssimo lugar do qual um dia parti.
Sobrevivi as intemperanças
entre a têmpera e o martelo
para encontrar entre as escórias a minha retidão.
Como uma armadura que se sustenta inocupada,
o metal reluzindo sobre a minha imensidão.
Eu lhes dei tudo, sem ter me sobrado nada,
apenas o estranho fascínio que desemboca em desilusão.

Camas de Gato


O que perdi em profundidade,
ganhei em redobrada mansidão.
Amadurecer é simplificar-se,
desatar os nós de sua própria criação.

Antes precisei destes fios
para não sobrevoar e perder-me
em meio às promessas de infinito e compreensão.

Depois, como Teseu, usei-os para escapar
das muralhas e labirintos
erigidos somente em minha tola imaginação.

Agora armo camas-de-gato,
sabendo ser o destino
algo que somente se fia
pelas suas próprias mãos

Porcelana

Alvas faces
sempiternas e prostradas.
Tão indiferentes ao tempo
que lhes descasca a vítrea pele.
Frutos de um ditoso capricho
há muito esquecido
mas que ainda assim ecoa
como um suspiro na eternidade.

Suspensas em prateleiras
ou embaladas em suas caixas,
seus olhos fugidios parecem sempre olhar
para um algo mais além.

Tudo em volta se corrompe e se destrói,
mas as bonecas de porcelana permanecem sentadas
esperando pelo chá que não viria.

Enlace

Tão desfiguradamente idealizada
e tão além de meu alcance.
Tão completamente desconhecida
e tão aquém de minhas expectativas.
Eis uma mentira que se sustenta
sobre os anseios de um coração.

Nunca quis desdenhar o que tenho de concreto
ou questionar o horizonte e amplitude
de meu melhor amor possível,
mas ainda assim sonho com você.

Foi apenas um abraço
entre a escuridão tonante.
Tragado do sono
por Aurora dedirrósea,
eu não queria mais dormir.

Sonhos e Abortos

Quando contei meus anos
e minhas primeiras barbas,
pus meus sonhos em caixas
e os amarrei com nós cegos.
Vi-os se afogarem como gatinhos
e disseram-me que isso é amadurecer.

Aprendi então a comer giletes
para desembrulhar o estômago
e vencer o desespero cego
de ver horizontes, mas nunca as saídas.

Veja o rubor de minhas palavras.

Entregue ao abraço insosso de manhãs cinzas,
caminhando sobre chamas que se apagaram,
mas com os pés que ainda se lembram
da alegria do caminho.

Dia após dia,
eu olho os prédios altos
sabendo ser preciso escalá-los
pra no topo nunca nada encontrar.

Dimensões reduzidas de um mundo de paredes.
Preso em minha própria caixa,
vendo finalmente, pelos cantos,
a água começar a brotar.

Eu ainda os ouço.

Será que somos todos
apenas sonhos e abortos?

Alvo

Erro por encosta íngreme até pela imensidão estar cercado.
Sustento-me apenas pela vertigem de não querer voltar atrás.
O corpo cede ao esforço e tomba,
mas os olhos jamais se desprendem do alvo.

Rompe um novo Sol por detrás da névoa e noite.

Coroado o esforço com a Visão do Mundo,
perfuro as nuvens com as mãos
e vejo na pequenez indistinta
o lugar de cada coisa.

Estando suspenso em altitudes rarefeitas
e tão retraído na imensidão de ser,
resta-me agora enaltecer o meu silêncio
e com ele preencher os vales e encostas.

Cônscio como Sísifo das coisas que me pesam,
desço com os músculos fustigados
e a certeza do voltar.

Intemperança

Ver o Sol nascer e criar outra lembrança.
Venha se perder em sua própria intemperança.

Fotos e gravuras em paredes penduradas.
Veja a morte da bravura em nossas vidas encenadas.

Uma onda vai romper estes castelos de areia.
Custo a perceber a solidão que nos permeia.

O tempo esculpiu nossas alvas compleições.
Algo nos uniu, mas nos tolheu as direções.

Desejo

Inconstrito em meu desapego,
Desejo mais do que se pode querer.
Os pés ensaiam sua valsa
enquanto sentado só me resta o nada fazer.

Fulguram elas, lindas como estrelas,
tão próximas e tão longe do meu alcance.
Sou logo consumido por este fogo que não me queima.

Eu jamais fui páreo para minha biologia.

Quisera eu ostentá-las como troféus,
mas a mão que se estende ao horizonte
é a mesma que precede o passo que desapercebido falha.

Hubris tosca que o comedimento mata,
estou agora à salvo da intemperança das marés.
É bom saber que a migalha basta,
mas nela não encontro o sossego de meus pés.

Yeats - The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: a waste of desert sand;
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Wind shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

Partículas

Eu me disperso,
eis aqui meu gradiente.
Estou em todos este cantos,
mas aonde estou presente?

Sobre superfícies irregulares,
minha bidimensionalidade.
Entre as coisas que colidem,
minha própria fragilidade.

Poderia o centro tornar tudo isso coeso?
Qual o traçado separa o outro do eu mesmo?

Eu não tenho princípio, mas contemplo o meu fim,
como o estado de um sistema que converge
para algo que se situa muito além de mim.

É preciso que exista um algo mais,
algo que justifique ou iluda,
um ponto referencial distante
ornado com a indiferença que desnuda.

Nunca fui o movimento
ou mesmo a sua projeção estática,
Apenas a Alma do Mundo
idealizado pela sua Matemática.

Destrambelhado

Você nunca quis
apagar seu cigarro
e se sentar a nossa mesa.

Eu nunca ouvi
você dizer obrigado
ou alguma outra gentileza,

Ainda assim
as portas se abrem
para todas as suas sutilezas.

Vênus orbita
novamente em meio
às suas pequenezas.

Quando cortarem suas fitas,
quem irá do chão recolhê-las?

Os toscos e rotos,
os podres e tortos,
os lobos ou as suas ovelhas?

Esperam um sinal
ou mais uma via pro mal,
eis a escuridão que lhes esguelha.

Despeço das vestes
e das feridas banais,
a sua ausência me destrambelha.

Removo as grevas
na escuridão entre-postes.
Algo rasga a noite
e o silêncio nas vozes.

Eu já não caibo mais em mim.

Seu Sol se Pôr

E se eu te dissesse
que jamais mentiria
em sua cara
ou pra sua tia.

E se eu te disser
que irei repor
todas suas flores
até seu Sol se pôr.

Sinto sua saudade
a me roubar o sono,
essa é a verdade
daquilo que somos.

De nada adianta,
nada adiantaria,
essa é nossa casa,
essa era nossa filha.

Corredores

Hoje vem a serpente me remedar os dentes
com seus olhos de rubi e um sorriso de leão.
Como o amigo que a tempos não vejo
me abraça sem seus braços
para em meu ouvido escorrer seu gracejo.

Baleando e baleados por palavras perdidas.

Todos dançam sem jamais revelar o que são.
Pelos corredores, sorriem e se abraçam
por entre as velhas estórias
e os mesmos apertos de mãos.

A cordialidade do interesse na apatia da convenção.
Estendo-lhe o meu obrigado por ter-me picado a mão.

Mistérios Banais

Um tigre espreita o lago
e encurrala seu reflexo entre as pedras.

A forma fugidia lhe arremeda os movimentos
enquanto seus músculos se retraem na eminência do ataque.

Ele não soube distinguir
o marulhar de pedra e água
da risada do escárnio.

A figura se dissipa
restando-lhe somente a objetividade de sua dor.

O universo preserva seu Mistério
nas rachaduras do entendimento.

Todos vemos o que queremos ver.

Divina Indiferença

Em uma noite,
implorei-Lhe que me enviasse um mensageiro
para mostrar o meu lugar no mundo.

Em meio às estrelas e os rituais,
pensei ter aberto janelas
que não saberia fechar,

Mas me encontrei sozinho,
ajoelhado em um corredor de portas fechadas
com minha inocência e estupidez
apontadas para minha cabeça como uma arma.

Eu bati nas portas do Infinito
e ouvi a minha insignificância
ecoar no silêncio
como o leve riso
da indiferença.

Skoteynos

Eu não estou na multidão de olhos multiformes,
tampouco estou na imensidão plácida das águas.
Nunca pairei sereno sobre prados extensos,
Nem nunca na noite me envolvi como um amante.

Quando encontrado, deixo de ser o que pretendo.

Sou como o botão da camisa que caiu atrás do armário.
ou a correspondência extraviada do correio.
Sou como janela que se abre pra paredes
ou como piscina que se desfez de sua água.

Faço-me presente na leveza da ausência,
como o vento que fecha portas
enquanto ninguém na sala as olha.

Minha sombra me projeta sobre os móveis e paredes.
Desconheço minha profundidade e a minha extensão.

Levanto-me no ocaso
para retomar o que é meu,

Silêncio e contemplação.

Prolegômenos do Inevitável

O gelo está se afinando
em meio ao nosso jogo de escolher passos.
Nossa dança é insiginificante
em meio a esse imensidão branca.
Viramos nossos rostos
para que não tenhamos que decidir.
A corrente é forte demais sob os nossos pés.
Por mais que corramos rápido
as rachaduras irão nos alcançar.

Você diz que as coisas irão mudar,
mas já ouvimos os prolegômenos do inevitável.