sábado, 27 de abril de 2024

A Raiz Azul dos Sonhos


Com os olhos fechados,
Perdido em escuridão líquida,
Outros mundos em sussurros se descortinam.
Encontro-me pairando em vastidão sem forma
No infinito amniótico
Onde os começos se dissolvem,
Pulsando transformações como marés.

Posso sentir algo em mim mudando,
Os estertores de alguma morte desigual.
Estou translúcido para os dissabores de tudo.
Ouço notas que parecem reverberar mais longe
Sugerindo alguma unidade a muito perdida.

Minhas mãos se estendem como capilares invisíveis.
Posso roçar as pontas dos dedos no incognoscível,
Traçando a raiz azul dos sonhos
No primevo movimento esquecido.
Daqui brotam os etéreos alicerces
De tudo que é significativo
E de tudo que é real.

Estamos prenhes de motivos e sentidos
Apenas enquanto presos nestas teias do lembrar.
Ainda assim nossas vozes ecoam breves
Por entre este vácuo sideral ocupado
Pelo interstício de nossas horas,
Pela finitude de nossos risos.

Sombras difusas rodeiam-me.
Os olhos abrem-se novamente.
Trilho a estreita rota da manhã.
Vistas claras, peito leve.
Todos os psicopompos precisam retornar sozinhos.
Um origami de luz e sombras.

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