terça-feira, 30 de junho de 2026

Tempestades

 


As feridas ainda se fecham.
Tábuas pregadas sobre portas.
Vãos pendem solenes
por entre a mobília revirada.
As janelas hão de quebrar,
mas o pior passou.

Uma casa em cacos feita.
O vidro orna o chão com sangue.
O silêncio não conforta mais
os quartos tão preenchidos de falta.
É tudo tão azul aqui.

Fotografias arrevoam pela sala.
Velhas cartas destruídas pela água.
Já não há música aqui,
mas tudo já teve seu lugar.

Eu ainda ouço os trovões distantes.
Sinto o vento em meu rosto.
Nada me restou.
A noite esconde a dimensão da perda.
Livre enfim.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Raiz Azul dos Sonhos


Com os olhos fechados,

Perdido em escuridão líquida,

Outros mundos em sussurros se descortinam.

Encontro-me pairando em vastidão sem forma

No infinito amniótico

Onde os começos se dissolvem,

Pulsando transformações como marés.

.

Posso sentir algo em mim mudando,

Os estertores de alguma morte desigual.

Estou translúcido para os dissabores de tudo.

Ouço notas que parecem reverberar mais longe

Sugerindo alguma unidade a muito perdida.

.

Minhas mãos se estendem como capilares invisíveis.

Posso roçar as pontas dos dedos no incognoscível,

Traçando a raiz azul dos sonhos

No primevo movimento esquecido.

Daqui brotam os etéreos alicerces

De tudo que é significativo

E de tudo que é real.

.

Estamos prenhes de motivos e sentidos

Apenas enquanto presos nestas teias do lembrar.

Ainda assim nossas vozes ecoam breves

Por entre este vácuo sideral ocupado

Pelo interstício de nossas horas,

Pela finitude de nossos risos.

.

Sombras difusas rodeiam-me.

Os olhos abrem-se novamente.

Trilho a estreita rota da manhã.

Vistas claras, peito leve.

Todos os psicopompos precisam retornar sozinhos.

Um origami de luz e sombras.


sábado, 18 de abril de 2026

Sal & Suor


4/4

Verso - parte A 

D
e|2
B|3
G|2
D|0
A|-
E|-

D7
e|2
B|1
G|2
D|0
A|-
E|-

G/B
e|3
B|3
G|0
D|0
A|2
E|-

Gm/Bb
e|3
B|3
G|0
D|0
A|1
E|-

Verso - parte B

D
e|2
B|3
G|2
D|0
A|-
E|-

D7(no3)
e|5
B|3
G|5
D|0
A|-
E|-

G
e|3
B|3
G|4
D|5
A|-
E|-

Gm/D
e|3
B|3
G|3
D|0
A|-
E|-

Pré-Refrão

Bm
e|2
B|3
G|4
D|4
A|2
E|-

Bm11/A
e|0
B|3
G|4
D|4
A|0
E|-

G6
e|0
B|0
G|0
D|0
A|2
E|3

F#
e|2
B|2
G|3
D|4
A|4
E|2

Refrão
Dm
e|1
B|3
G|2
D|0
A|-
E|-

A7/E
e|0
B|2
G|0
D|2
A|-
E|-

Bb/D
e|1
B|3
G|3
D|0
A|-
E|-

Gm/Bb
e|3
B|3
G|0
D|0
A|1
E|-

(Verso - Parte A 2x)
Aqui não mais me dá pé
Não consigo mais respirar. 
As ondas vão me levar
para algum lugar 
tão sereno e azul

(Verso - Parte B 1x)
E você estará lá 
Esperando o meu chegar

(Pré-Refrão 3x)
Mas o sal me queima a boca
É tão difícil respirar.
Ainda me resta alguma força 
É preciso navegar ×3

(Refrão 4x)
Viver não é preciso não x 4

(Verso - Parte A 2x)
Uma estrela,
Um farol ,
Um lugar nenhum.
Sobre a areia,
Sob  ondas,
É tudo tão comum.

(Verso - Parte B 1x)
E você estará lá 
Esperando o meu chegar

(Pré-Refrão)
Mas o sal me queima a boca
É tão difícil respirar.
Ainda me resta alguma força 
É preciso navegar x3

(Refrão)
Viver não é preciso não x 4

(Outro)
As ondas vão 
Te desbastar,
Te desfazer.
Tudo vira mar

Tudo vira amar(4x)



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Vozes e Vultos



Como é sem graça
o beijo das traças,
vozes e vultos
assombram o meu violão.

Uma luz diferente
reluz sobre meus dentes
em meio à pompa
e toda circunspenção.

"Irmãos venham aqui,
eu vos reuni
para ensaiar
meu mais novo sermão."

É tudo água
ou apenas mágoas
ornando o vazio
entre o ceú e o chão?

São tão sem graça
essas nossas farsas,
do amargo vinho
ao dormido pão.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Com Espinhos

 

As cores estão mudas.
Está tudo bem.
Tudo isso há de passar também.

O silêncio nos coletivos
é quase uma oração.
Algo havia de nos guiar
por entre cada estação.

Com minhas malas e medos, eis me aqui,
o mesmíssimo lugar de onde eu parti.
Um pouco mais velho,
menos inocente,
mas ainda sim perdido
entre ilusões e dissabores.

Tomo meu café com espinhos.

Deveria haver algo mais,
mas só existe a nudez de conhecer-se bem.
Tudo isso há de passar também.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Claridade (v2)

 

Por mais que sigas na frente
rasgando a noite como um raio,
passos atentos amparam tua jornada.
Havemos de estar aqui,
próximos ou distantes,
protegendo-te sem podar quem és.

O sangue traça primeiro
as margens indeléveis do afeto.
A presença as reforça,
como fibras entrelaçando-se
em meio ao revoar dos dias,
uma corda conectando
o seu ser com o seu se tornar.
É tão difícil mensurar algo tão delicado
por entre o borbulhar dos fugidios anos.

Não tenho palavras doces para lhe dar,
apenas abraços sem jeito,
piadas sem graça,
a constância resoluta dos costões
que margeiam os mares,
que suportam as ondas.

Quando tu vens, entras pelas janelas
como a luminosidade leve de um dia bom,
e a tarde cinza preenche-se de risos.

terça-feira, 10 de junho de 2025

מלאכים


A estática é tudo que ouço,
estações fora de sintonia,
portadoras esganiçando o sinal.
Com minha antena perscrutando o infinito,
nenhuma fagulha ou faísca pude encontrar.

Aonde estariam os mensageiros?
Carregam eles nossas preces para o abismo?
Eu também queria ouvir a música das esferas
ecoando doce por entre o périplo dos planetas.
O universo é tão indiferente
à nossas agruras torpes e pequenas.

Eu ainda estou aqui,
como a espuma desfazendo-se na praia,
como a areia cuja queda marca o tempo,
como o pêndulo cessando seu movimento,
como o vento encontrando sua casa
no grande corte na barriga da noite.

Eu presto muita atenção ao que o silêncio diz.