terça-feira, 4 de julho de 2017

Sorria

Algumas pessoas atravessam as ruas
muito mais lentamente que outras.

Algumas ruas nos atravessam
muito mais intensamente que pessoas.

Algo se esconde na dilatada natureza do tempo
como pequenas dobras imperfeitas
nos exímios edredons estéreis
dos melhores hotéis.

Nas escadas rolantes dos metrôs ou shoppings
perdura o pleito de Sísifos mecânicos
sem que ao menos um pé lhes agraciem
suas corrugadas costas metálicas.

Mapas pendurados em complexos industriais
sinalizam com precisão cartográfica
nosasa localização exata e como dali fugir
sem que, no entanto, ninguém o faça.

A verticalidade dos elevadores
não contemplam toda a latitude do pensar.

Existe algo tão profundamente óbvio
que ainda assim nos escapa o entendimento.

Pois afinal sorrimos por sermos filmados
sem que exista um digno espectador
para toda a alvura de nossos dentes.

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