quarta-feira, 26 de julho de 2017

Dragas

É o peso que sulca os caminhos e discerne as direções.
O chão carece do sentido que no horizonte abunda.

Dentro dos gravetos existe a raiz efêmera do fogo,
mas ainda sim cedem ao apelo das botas
com seu marchar decidido e sua violência orquestrada.

É a tensão que nos remete do impreciso para o exato,
como se as cordas de nossa própria existência
fossem por um demiurgo puxadas
para nos afinarmos ao uníssono desespero do mundo.

A escuridão sucede o silêncio.
Ausência e apatia amalgamadas
de forma singularmente perene.

Em meio aos nossos pesares privados
suplicamos por meio do sub-texto e do silêncio
por uma platéia e por aplausos
que validem nossas dores
e os nosso tantos amores
tão estupidamente burgueses.

Nós somos o sal e somos Cartago.
Somos o intransponível Rubicão transposto
pelos pés de um melhor César 
que há de um dia vir.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Sorria

Algumas pessoas atravessam as ruas
muito mais lentamente que outras.

Algumas ruas nos atravessam
muito mais intensamente que pessoas.

Algo se esconde na dilatada natureza do tempo
como pequenas dobras imperfeitas
nos exímios edredons estéreis
dos melhores hotéis.

Nas escadas rolantes dos metrôs ou shoppings
perdura o pleito de Sísifos mecânicos
sem que ao menos um pé lhes agraciem
suas corrugadas costas metálicas.

Mapas pendurados em complexos industriais
sinalizam com precisão cartográfica
nosasa localização exata e como dali fugir
sem que, no entanto, ninguém o faça.

A verticalidade dos elevadores
não contemplam toda a latitude do pensar.

Existe algo tão profundamente óbvio
que ainda assim nos escapa o entendimento.

Pois afinal sorrimos por sermos filmados
sem que exista um digno espectador
para toda a alvura de nossos dentes.