sábado, 31 de dezembro de 2016

Escumas do Tempo

Obscurecidos pelas escumas do tempo
Como a madeira trazida pelas águas
E abandonada em areias de alvura impossível.

Estaticamente esperando em arredores mutáveis,
Contemplando uma geografia redefinida pelo invisível
Como o tempo, o vento e a circularidade infindável das marés,
Cinzelando os costões mais altos e belos
Nas regiões mais limítrofes do Real.

Desbastados do infinito por mães gentis.
Renascidos no Indizível pela terceira Parca.
No Princípio havia o Verbo
E no Fim não havia Nada.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Passageiro

Preciso morrer
Para renascer das escumas e escombros
De um velho eu.

Eu me trouxe às bordas do mundo,
Mas não pude transpô-las.
Eu acedi ao afiado fio,
Mas não consegui libertar a carne.

O ponto estático ao centro é o berço do infinito,
Onde perpetuamente reencenamos nossos erros.

Contemplando o Oeste com olhos de adeus,
Renascendo ao Leste com propósito renovado.

Náufrago

Eu me desnudo
E me desapego do senso de controle.
Eu estou à mercê das marés
Como a garrafa e a mensagem selada
Arremessada em direção às rochas
e costas desconhecidas.

Todos os faróis se apagaram.
As estrelas emudeceram seu brilho.
As bússolas não apontam para o norte verdadeiro..

Em um arquipélago de possibilidades reduzidas,
Improvisa-se uma morada.

Tão entregue como criança nos braços de mãe,
Sendo ninado pelos sôfregos beijos da solidão.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desnudado

Eu preciso de alguém que eu possa chamar de lar,
Para deacansar meus ossos cansados
E deixar minhas surradas suturas cicatrizarem.
Quero ouvir sussurado em meus ouvidos agredidos
Que tudo vai ficar bem
E que eu nâo preciso mais me preocupar.

Estou cansado de ficar na chuva
Arrastando uma cruz de pesares pela lama
Em diminutos e concêntricos círculos.

Desnudado pela angústia,
Procurando um norte verdadeiro,
Só encontro no silêncio dos Querubins,
A dimensão da minha própria dor

Endereço

Um estranho conforto paira sob a rua
Fazendo as folhas rufarem mais devagar.
Uma chuva fina cobre os carros.
A luz refletida é débil e torta
Mas perfeita em sua fragilidade.

O cinza recai sobre as superfícies
Tornando rombudas as pontas e quinas
Em que insistimos tanto em colidir.

Os cacos são grandes o bastante para serem colados.
As feridas podem, apesar de tudo, ser curadas.

Nós carregamos o peso do mundo
Pois tememos flutuar pra longe
Sem um algo ou um alguém que nos impeça.

Não nos resta nada,
Só esta rua arborizada que se entende
Do infinito aos nossos pés.

Os carros passam devagar.
Ao fundo um pássaro canta.

O sinal està verde
E todos te esperam passar
Por esta rua de mão única
Chamada solidão.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Remendados

Punhais cravados ao peito
Mutuamente contorcidos
Por mãos vacilantes
Que buscam ser um algo melhor.

O abraço não se desfaz apesar da dor.

Expostos e escondidos
Por entre os escombros
E remendos que nos restam.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Pairando Alto

A inquebrantável
Unicidade de propósito
Sustenta, por si só, o seu voo.

Asas que jamais retrocedem.
Penas que jamais se apequenam.

Enquanto suas garras
Estraçalham a carne,
Os seus olhos estão voltados
Para seu ninho
Construído em altura extrema
Beirando as bordas do infinito.

Contempla
O falcão
A natureza doce
De sua presa?

Fin

Chuva fina.
Poças nas ruas
Apressam o passo
Do transeunte incauto.

Ele não vem ou vai
A lugar algum.
Mãos nos bolsos,
Cabeça baixa.

Um outro dia
Em um outro lugar
Em que não se encaixa.

As ruas se afunilam em vielas
E ele não tem mais pra onde ir.

Saudade

Calo e relembro dos tempos de tempos atrás.
Preso na sutil teia de memórias
Reconstruo momentos cotidianos
Agarrando os ecos do passado
Como se estes fossem vida.

Avolumam-se as brumas do lembrar
Intensificada pela quietude dos nascituros.
Nós nos jogamos em direção ao passado
Propulsionados pela dimensão estéril da dor.

Os rios correm ao contrário.
Nosso destino derradeiro é a vida.
Testemunhamos o nascer da inocência em nossos coracões pesados.
Sem um adeus, o presente se distancia na janela traseira do carro.

Nós nos revertemos ao centro.
Nos desfazemos para sermos completos.
Nossa existência é uma afronta ao uno e ao indivisível.

Se existimos, existimos sós,
Dentro dos limites torpes e sinuosos
De nossa intransponível solidão

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Corpos Imperfeitos

Linhas invisíveis.
Estranhos atratores.
Um magnetismo falho permeia o nosso meio.
Vetores que se confundem
E que não resultam
Em direcão ou magnitude alguma.

Tudo gira sem aparente nexo
Em um eixo que nos tange e foge
Com simetria e razão disformes.

Da matemática de nossas vidas
Subtrai-se o absoluto e o perfeito.

Perpetuidade

Vazio,
Oco,
Incapaz de sustentar seu próprio peso,
Mas ainda sim ereto,
Inerte perante às dores do mundo.

Um semblante sem expressão
Em meio a tormenta que passa,
Continuamente passa e nunca se acaba.

A tempestade de areia
Me come as carnes da cara.

Parado,
Transtornado pela ausência de escolhas,
Conscrito pelo caos circundante.
Uma língua imobilizada por perdas e pedras
Balbucia retardamente seu grito de liberdade
Em direção ao tremulante
Véu da inexistência.

No silêncio ele se fez só
E na solidão, ao menos,
Fez-se sereno.

Paisagens indstintas pela janela do carro
Nunca chegando a lugar algum.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pleural

Poço, negro poço,
Debruço-me sobre ti
Para ver os meus pesares,
Mas contemplo apenas
Uma escuridão líquida.

Escorrendo por entre dedos e mãos,
Emancipando-se do olhar por entre as frestas,
Fazendo-se presente sem jamais estar lá.

Sua água não sacia a minha sede,
Mas ainda sim me afogo.
Sua água pela minha pleura tomada.

Quedam-se os baldes.
Rompe-se a corda.
Como um Narciso às cegas,
Buscando freneticamente
O seu próprio olhar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Meet me there

Everything is heavy.
The lillies are crushed
Beneath the boots of soldiers.

Our backs are turned to the dawn.
Hope lies beneath the mortar.
Drops trickle down the trenches.

Crouched beneath the shells
On the pale bled sand
Of rocky humdrum beaches.

Meet me there when it is over,
When the days are lighter
And our names whispered
By the sweet breath of children.

sábado, 17 de setembro de 2016

Dias Melhores

Minha liberdade é periférica,
Meus anseios relativos.
Vislumbro num horizonte diminuto
minhas possibilidades podadas.

As paredes se apequenam,
os problemas se avolumam,
em um patético cabo de guerra
disputado entre o mundo e nós.

No sacrifício não há sentido.
O labor jamais liberta.
Agrilhoado por responsabilidades latentes,
ensimesmado pelo peso do mundo.

Hão de vir dias melhores
no qual meu fantasma tomará forma
além dos difusos contornos do abstrato.
Uma vida além do incessante eco,
concretizada no lufar do primeiro sopro
removendo as velhas folhas do jardim.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Dimensões de Mim

O vazio impregna os cantos,
A essência ocre de possibilidades exauridas.
Os ponteiros seguem sempre adiante.
Os pêndulos rumam para frente e para trás.
O instante inexiste e nos rouba a morada.

Os deuses se escondem embaixo de jornais e papelões no Boulevard.

Pendemos violentamente entre o futuro e o passado
e perdemos a verdadeira dimensão de Ser.
Não temos mais medida e não temos mais moeda.
Nossas fibras quebradiças não resistem à tensão.

Nós nos rompemos como barragens,
de forma violenta e cega,
até nos tornarmos vazios
e indistintos em nosso sofrer.

Dor que não nos identifica,
Não nos auxilia no viver.
Derivamos incertos
tangenciando o dedirróseo naufrágio das manhãs.

Eu me envolvo num manto
de clichês e lugares comuns
tentando me proteger
do frio de minha própria mediocridade.

Não irei conquistar mulheres ou muralhas.
Minhas costas pendem e se arqueiam
perante o peso imaginado do meu quinhão.
Ancorado apenas no cais constante
de um verdadeiro amor,
eu persisto
e vou mais longe,
além das diminutas dimensões de mim.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Verniz e o Vazio

Quando tudo que se tem é tempo,
tudo que se têm escorre por entre os dedos
como areia de praias de outrora.

Mãos vazias e suplicantes
estendidas idiotamente
em direção ao horizonte
clamam por respostas
que jamais viriam.

O ensimesmamento é uma armadura.
Toda dor é uma coroa.
Somos os mais garbosos cavalheiros
em defesa e serviço da estupidez humana.

Estamos nus e desprovidos
e mesmo assim
nunca estivemos mais distantes
de nosso recôndito lar.

A conformidade ou a revolta
oscilam estupidamente
como uma sucessão
de reis ou marés.

Nossas vidas,
como uma comédia de costumes,
apresentadas perante
os enuviados olhos
da solidão.

As sombras estouram-se
além dos torpes limites do possível.

e ainda assim estamos sós,
olhando de fora pra dentro
e nos destruindo com a mais agressiva indiferença.

Testemunhe o definhar no tempo
e jamais nos diga
que foi tudo
em vão.

O Verniz do Sentido
fala mais alto
que o Vazio
da Razão.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Silêncio que Sucede a Música

Tão gasto e desbotado como uma nota esquecida
nos bolsos de um velho casaco,
mas ainda sim, com algum valor.

Eu aliso a pinturas das paredes
descascando a tinta dos cantos
para camadas ocultas revelar.
Mas o tijolo e o concreto eu nunca alcanço.

Ouço o ranger débil das dobradiças e fechaduras
perturbando a notívaga unidade do sono.
De olhos fechados eu enxergo tudo que ao Limiar escapa.

Jogamos nossas cabeças para trás
quando a ciranda repentinamente se acelera.
Nós somos a tolice desses céus borrados
sustentados tão somente
por pés desorientados e recalcitrantes.

Por isso escrevo o meu tnome
em troncos seculares
para escapar da minha finitude.

Nós somos o silêncio que sucede a música.
A palavra que escapa da garganta
para morrer indiferente na multidão.

Nada nunca muda.
Nada nunca nos mudará.
Nossas vidas são como a trajetória fria e fixa de estrelas.

Os nossos reflexos estão desbotados.
Nossas sombras se apequenam
perante à transfixa Aurora das Dores.

O Infinito cretinamente nos perpassa






... e ficamos para trás
como crianças desgarradas
tateando em vão na escuridão
em busca de um alguém
que nunca esteve lá.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Novas Chaves

Os livros já estão nas caixas
Espalhadas pela sala e a cozinha.
As paredes não mais se contentarão
Com a nossa companhia.

Eu não consigo achar.
Aonde poderia estar
Aquela nossa
Fotografia?

Tudo estava bem.
Nada me contém.
Novas chaves
E incertezas.

Estava eu além
Ou um tanto quanto aquém
De todas essas
Pequenezas?

Mas tudo irá passar.
Tudo irá mudar.
Se tudo muda,
Eu me mudo também.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Efêmeros

Outra onda,
Outra pegada apagada.
Estórias interrompidas
e outras tantas inacabadas.
Quem vai, por fim,
se lembrar de nós?

Em folhas amarelas
e em páginas viradas,
Por quanto tempo devemos
esperar aqui sós.

Em horizontes longínquos,
Além de intanģíveis morros uivantes,
Pra sempre consumidos
 por um desejo atroz

Por um algo que espreita e paira
Muito além do reto caminho,
a poucos centímetros
ou a quilômetros de nós

Mas nossos braços curtos
e nossos desejos dissolutos
Hão de nos guiar como um velho farol.

Velejo com a tormenta
em meio a oceanos profundos
Em direção ao mais solitário Atol.

Sobre as areias mais finas
e sob a indiferença divina,
Quem poderia um dia se lembrar de nós?

Tudo é tão impermanente,
Nossos atos tão inconsequentes.
Os pés que tocavam a areia,
Já não tocam mais o chão.

Quem vai, no fim,
se lembrar de nós?

De nossos rostos sem forma.
De nossos corpos sem peso.
Do vazio que delineia o átomo.
De nossos corações incognoscíveis por Deus.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Camisas Verdes

Ruas amplas,
Peitos largos e
Passos fortes.

Uma marcha que oprime os poucos
e exprime a razão de loucos
numa página virada e amarela
de nossa história azul e verde.
Entre indistintas monofonias regurgitadas
de horizontes e possibilidades reduzidas,
Tudo parece simples e possível.
Tudo se endireita.
 Tudo se estreita.
Tudo, de forma tão direta, mente.

Por trás dos olhos azuis de meu avô
brilharam intensamente as labaredas do ódio,
mas nada brilha por trás dos meus.