quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ex Machina

Abrem-se as cortinas.
O palco revela apenas uma cadeira
sem alguém que lhe ocupe.

Luzes traseiras projetam longas sombras retilíneas,
traçando do chão ao teto uma via sutil e sacra
por alguém jamais trilhada.

A vítrea pele dos relógios
refletem a aflição nos olhos estampada.
Corações e engrenagens pronunciam-se desordenadamente.

As asas mecânicas nos falham.
As nuvens cenográficas são por demais pesadas.
As auréolas dos santos eram apenas luzes de halogêneo.

Mas certamente há de vir alguém
cuja presença anestesie nosso incômodo.

Certamente há de vir alguém
que justifique a nossa espera.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mormaço

Oculto, mas presente,
pairando indistinto pelos cantos,
sorri um Sol que não se mostra.

Na pele, o suor.
Longos dedos invisíveis se fecham
num sufocante abraço que não se aparta.

Algo paira no vazio além de nuvens
e faz a temperatura se elevar.

Queria ver para virar-lhe as costas,
mas você me rouba toda a doçura do negar.

Aprendiz

Acidentes acontecem
e assim veio você.
Uma dádiva sem espaço para a vida.
Com abraços recebida,
mas sem convites pra viver.

Você mudou meus planos.
Vejo-lhe como quem olha correntes.
E agora aonto os anos
de meu carrasco doce e inocente.

Testemunho seus centímetros se ajuntarem,
o seu pouco cabelo avolumar.
Indeciso, deixo os momentos passarem.
Seu riso hoje me fez chorar.

Você vai amadurecendo,
Seus olhos perdendo o brilho
Questionando no silêncio a distância.
Reconheço relutante o meu filho.
Arrastando-me em sua lembrança,
Crescerá para ser melhor
do que eu fui?

Neste tabuleiro somos cavalos e bispos
impedindo nossos jogos perfeitos.
Meu filho, meu adversário,
você mora em meu peito.

[música]

Siga o riso,
siga o choro,
siga o rastro da manhã.

Siga o sábio,
siga o tolo
e me digas se és sã.

Siga o mundo,
siga o povo
ou o silêncio da maçã.

Siga tudo,
siga todos
e me digas se és sã.

Eu abri as portas,
eu olhei nos cantos,
me perdi em seus olhos
e contei os anos.

Calais

Águas turvas.
Ondas altas.
Braços fortes.
A sua falta.

Atravesso o canal a nado
para sozinho atravessar a minha noite.
Encontro-me em meio ao mar calado.
O vento leste é o meu açoite.

Barcos me passam pelo barlavento.
Eu vejo as luzes de Calais.
Em terra firme encontro o meu contento,
deixo somente mágoas para trás.

Cercanias


Minhas palavras não são minhas cercanias.
Elas se estendem e deitam onde eu jamais iria.

Todo esse fingir poético,
tão pequeno e tão patético,
em tentar tornar-se
algo mais que insinuante.

Palavras se avolumam
enquanto o sentimento se recolhe.

Constato na dormência dos sentidos
que no silêncio eu teria dito mais.

Espinhos e Encruzilhadas

Eu nunca vi as luzes
que agora lhes conduzem
para a cidade de Belém.

Em multidões sem rostos
de contrários entrepostos,
será que existe um algo além?

Aonde está a estrada?
Aonde é a sua morada?
(Em) Espinhos e Encruzilhadas.

[...]

Muitos Filhos


Arrumo a casa
e ponho cada coisa em seu lugar.
Fecho as portas
e estendo as toalhas pra secar.

A antecipação,
mais do que nunca,
paira solta pelo ar.

Convites distribuídos
e colchões divididos.
Eles logo irão chegar.

Somente a reza os vigia nas estradas.
Como crescem e logo batem as asas,
mas seus feitos são coisas pra se orgulhar.

Suas comidas favoritas
e velhas camisetas descoloridas,
mas neste feriado,
infelizmente,
eles irão trabalhar.

Lírios Selvagens



Preciso aprender a precisar de menos.
Encontrar repouso e força
em solo fértil,
sonhos firmes
e futuros mais amenos.

É como se fôssemos lírios
prensados entre páginas amarelas
de antigos tomos de biologia.

Esta jamais foi a clareza sincera que queria.

Promessas não cumpridas de amor e vida.
Apenas contornos quebradiços
com toda sua vitalidade esvaída.

Eu não preciso de muito e não preciso de tudo
que contemplo em meu longo caminho pra casa.

Sobre folhas caídas e noites mal dormidas,
aos poucos reencontro no mundo a sua graça.

Impelido pelo furor
em direção a novas paisagens,
sigo sozinho em busca
dos mais belos lírios selvagens.

Barganhando em Encruzilhadas

Como em uma tola cartografia de cegos,
tateio a forma de um algo maior.
Os caminhos estão todos abertos,
mas a nenhum deles me entrego.

O respeito austero das encruzilhadas.
Para transformar o tudo em nada
apenas uma escolha basta.

Barganhas feitas com o invisível
não tornam nossa existência mais compreensível.