terça-feira, 30 de junho de 2015

Intransponível

A cortina de miçangas pende mais longa
sem que jamais toque o chão.
Com peso leve e aparência diáfana,
mostrou-se intransponível
Como César dando suas costas ao Rubicão.


Posso ver no outro lado toda luz que brilha
Difusa nas paredes, filtrada por janelas,
mais quente do que se pode ser
na grande sala tão repleta de ausências.


Eu não estou lá
e tão pouco estou aqui
atrás da cortina que tudo esconde e revela.


Sombras perpassam simples os limites
com a dádiva da bidimensionalidade,
Não dando o apreço devido
às nossas translações
e elocubrações desnecessárias.


Ariadne se atém com força e o fio rompe.
Ela não encontra a saída,
mas as miçangas rolam livres
como sementes de romã
clamando pelos lábios de Perséfone.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Estranho Atrator

Como o pode o Sol ser tão claro
em um dia tão frio e cinza como esse?
Somos remetidos a algo divino e débil
que nos confronta nos recantos dos espelhos.

O exército de manequins em sua marcha estática
equidistam uns dos outros na largura certa
dos braços que lhes faltam.

Tudo ruma de forma inexorável ao centro
sem que nada nunca chegue lá,
Como se um estranho atrator
puxasse as linhas do invisível
para se fazer presente
nos espaços recém desocupados
e no torpor recôndito da solidão.

Exumemos os corpos dos deuses
para com seus ossos erigirmos
nossa morada.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Resplendor

A estrada de terra e areia cerceia o rio.
Casas cada vez mais esparsas 
fazem paralelo aos trilhos uniformemente espaçados
enquanto o mato e o nada engolfam o resto.

Nossas vidas se desfazem
como costuras soltas puxadas
pelas meticulosas mãos do tempo,
mas o minério flui constante
do seios da terra até os costões do mar.

As pessoas se dobram e quebram pelo caminho,
mas o ferro suporta todas as coisas
e o ferro galga todas as distâncias.

As pequenas pelotas de minério caem por entre os trilhos
e brilham sob o sol do meio dia como estrelas 
de um firmamento invertido.

Somos como deuses ao avesso, 
nossos nomes conscritos
nas finitas páginas
do Livro dos Dias.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Odisséia

Todo silêncio suplica por respostas
quando os lábios dos ídolos já não se movem mais.
A apatia do Olimpo foi o berço da Razão.

Mas nos escuros e longos corredores
de nossa mente bicameral
ainda ecoam o largo riso de deuses
como espumantes ondas a se chocarem
nos arrecifes da loucura.

Como retornar à Ítaca
se a razão nos priva do sentido
e o sentido nos priva da razão?

O Trono está, pois, vazio.
O Anjo esconde a sua face.
O véu pende mais pesado do que antes.

Nossas preces são levadas
pela radiação cósmica de fundo
até os limites longínquos do Universo
onde celebramos nossa magnífica irrelevância.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Ávila


A áurea lança ao chão prostrada.
Rufla o Serafim as suas asas
e as chamas do êxtase por fim se apagam.

Teresa no frio chão treme.
Em fecunda escuridão
gesta as benesses dos que se calam.

Em Clerestórios e Vitrais
nunca incindiu a verdadeira Luz.

Nas diminutas dimensões da clausura
germina mais o espírito
do que na amplidão da Nave.